Repercussões pela nova nascente do Velho Chico
O
fantástico rio de duas nascentes, muitas lendas e mil e uma utilidades
As repercussões pela matéria exclusiva sobre a nova nascente
do rio São Francisco foram imediatas. Telefonemas, e-mails, cartas
e notícias nas rádios, sites, tevês e jornais de todo
o Brasil. O Jornal do Brasil foi o primeiro a repercutir a reportagem com
uma matéria do jornalista Hugo Marques, no dia 26 de abril. Depois
o Jornal de Brasília, dia 2 de maio, a Folha da Manhã (de Passos-MG),
o jornal Hoje em Dia de Belo Horizonte. A notícia, por ser importante,
polêmica e de interesse nacional, merecia mesmo essa divulgação.
Voltamos ao coordenador técnico da Expedição Américo
Vespúcio, engenheiro da Codevasf Geraldo Gentil, para avaliar essa
repercussão. Veja o que ele diz e guarde bem sua última recomendação
porque essa sim, pode ser o grande resultado de tantas pesquisas: - Quero
mesmo é ver duas placas afixadas lá nas nascentes do Velho Chico
mais ou menos assim: "Parque Nacional da Serra da Canastra-Samburá
- Nascente Histórica - Município de São Roque de Minas-MG"
e "Parque Nacional da Serra da Canastra-Samburá - Nascente Geográfica
- Município de Medeiros-MG". É verdade, tudo isso são
coisas do fantástico, legendário e valoroso rio São Francisco.
Só ele mesmo seria capaz de ter duas nascentes, tantas lendas e mil
e uma utilidades.
Foi muito grande a repercussão da matéria da Folha do Meio sobre a nova nascente do rio São Francisco. Como o senhor viu esta nova polêmica?
Geraldo Gentil - Acho que foi uma boa notícia, dada com seriedade e responsabilidade pela Folha do Meio Ambiente, e que correu as primeiras páginas de várias outras publicações. Por aí vemos a força dos números, a força das pesquisas e a força da verdade. Essa é uma notícia que tem conseqüência histórica, geográfica, política, ambiental e cultural. Não podemos ficar presos a amarras burocráticas. A coisa vai além. Os resultados de um levantamento desta natureza foram de surpresa, uma vez que se trata de uma área montanhosa tida como por demais conhecida, situada no Sudeste do País, no eixo Belo Horizonte-São Paulo, o que vem mostrar o quanto é grande o nosso Brasil. Tenho conversado com técnicos e recebido e-mails de toda parte, querendo saber o que faremos com os novos dados geográficos. Muitas pessoas dizem que esse trabalho poderá servir de modelo para outras bacias e sub-bacias na maioria pouco conhecidas, uma vez que a bacia hidrográfica é hoje a base do planejamento dos recursos hídricos para o desenvolvimento sustentado. A notícia veio colocar sobre a mesa a grave situação das cabeceiras a montante de Três Marias e das sub-bacias que para aí convergem, como a do rio Pará, Paraopeba, das Velhas, Marmelada, Indaiá, além das "historicamente desconhecidas" cabeceiras e seus primeiros formadores.
O Ibama considera a nascente histórica. Diz o chefe da unidade em São
Roque, Vicente Paula Leite, que o Ibama considera como nascente o ponto mais
alto e não o mais longo. Como o senhor vê essa questão?
Gentil - Respeito sua opinião, mas não acredito como ele afirmou
que "todos os órgãos governamentais consideram a nascente
de qualquer rio como sendo o ponto mais alto e não o mais longo".
Não sei de onde ele tirou essa unanimidade, até mesmo porque
a Cemig não vai por aí, e portaria de 1996 do Dnaee, hoje Aneel,
também não. E mais: a ANA anunciou que não se posicionou
ainda, "porque foi apanhada de surpresa". Vários experts
aqui em Brasília têm sido unânimes em elogiar a iniciativa
da Codevasf. Da nossa parte pesquisamos vasta literatura específica,
mas é bom haver contestações, é da natureza de
qualquer tese. Vejo nessa saudável polêmica nacional bons indícios
para se ensinar melhor a geografia nas salas de aulas. Até mesmo geógrafos
famosos estão sujeitos a erros, por exemplo, quando é citado
em atlas que o rio São Francisco tem a foz em "delta", e
não em estuário. Ou aquele vereador de Xique-Xique que disse
em audiência pública quando da Expedição Américo
Vespúcio que o rio São Francisco "nasce nas bandas de Montes
Claros e vem poluído de lá".
Não só as nascentes famosas são importantes, mas também
cada nascente de um minúsculo tributário lá nos grotões.
E a repercussão entre as cidades das cabeceiras?
Gentil - Olha, por coincidência estava em Iguatama e Arcos, região
das dez cidades-mães do São Francisco, quando saiu a reportagem
da Folha do Meio Ambiente. Nessa ocasião fazia palestras sobre a revitalização
da bacia na PUC Minas/Arcos e na Escola Superior de Biologia e Meio Ambiente
de Iguatama.
Quando a notícia saiu e outros jornais republicaram a matéria,
foi uma bomba. Todos - professoras e estudantes, prefeitos e vereadores, juízes
e promotores, empresários rurais e da mineração - queriam
saber mais detalhes. Acho que temos que aproveitar essa motivação,
essa polêmica para redirecionar o desenvolvimento na região.
Temos que preservar mais.
Alguns perguntavam por que a Codevasf não faz investimentos em fruticultura
irrigada e piscicultura no Alto São Francisco. Não existem campos
de pesquisa da Ufla, que integra o GTT/MMA para a revitalização,
nem da Epamig na região. É uma oportunidade para trabalhar mais
o turismo ecológico, e vejo que é viável integrar esta
região das cabeceiras que tem uma economia tradicional no setor primário
(agricultura, pecuária e mineração/indústria calcária)
para o setor terciário como o turismo, serviços e educação
superior, face à sua localização privilegiada.
Todo rio é um ser vivo. Tudo que se faz na cabeça repercute
nos pés e vice-versa.
Pelo menos agora o Velho Chico tem duas nascentes...
Gentil - Pois é, dizem que agora teremos dois fortes pontos turísticos nas nascentes. São dois pontos que se somam a dezenas de outros, rio abaixo. É o Caminho Fluvial do São Francisco, a exemplo do Caminho da Estrada Real. Nesses contatos que já vem de antes, pude perceber a surpresa e o carinho que todos tem para com o nosso Velho Chico, e a necessidade urgente de se mudar o paradigma voltado para um desenvolvimento sustentado. Ouvi também algumas opiniões contrárias, mais no sentido de se preservar o status quo, isto é, está tudo bem, nada deve ser mudado. Com estes devemos ter paciência, um dia perceberão que estavam equivocados.
Como a Codevasf encara esta questão política, administrativa e técnica?
Gentil - A verdade é que, historicamente, a Codevasf não tem
atuado a montante da barragem de Três Marias, construída nos
anos JK. Hoje a Codevasf possui aí a Estação de Piscicultura
e Hidrobiologia, tida como referência em todo o Brasil. Quem não
conhece o biólogo Yoshimi Sato?
A Codevasf também mantém atividades em Morada Nova de Minas.
Sabemos do interesse de Divinópolis em sediar a 8ª superintendência
do órgão, visando a alavancar investimentos em fruticultura
irrigada e agroindústria, e ancorar em parceria com o governo do Minas
e parcerias público-privadas, incentivos ao tradicional queijo canastra,
o café, as ações ambientais, piscicultura, ecoturismo
e outras atividades econômicas, como os arranjos produtivos locais.
Bem, mas eu não posso falar pela Codevasf, só quem pode é
o presidente.
Essa é uma questão localizada ou tem repercussão em toda a bacia?
Gentil - Como diz um provérbio chinês, temos que conhecer a montanha
para conhecer o rio. Não apenas estas nascentes famosas, mas cada nascente
de um minúsculo tributário escondido nos grotões, até
as grandes sub-bacias que tem origem nos píncaros dos divisores de
águas. O que causa uma grande preocupação é observar
a avassaladora ocupação pela agricultura intensiva da soja,
cereais e tubérculos com seus pivôs centrais para irrigação
desde as cabeceiras, onde já existem focos de pré-desertificação
em unidades de cambissolos e vossorocas gigantescas que ocorrem em vários
municípios.
Por isso criei duas metáforas "pescoço esfolado do Velho
Chico". Essa é uma visão da situação atual
e "as Dez Cidades-Mães do São Francisco", uma visão
nova e atuante desde São Roque e Medeiros até Santo Antônio
do Monte até os grandes cerrados do Paracatu, do Urucuia, do Carinhanha,
do rio GrandeBarreiras, que tem como carro-chefe o chamado agronegócio,
deixando de lado os critérios e valores ambientais. Isto sem falar
na desertificação da Caatinga, o deserto de Cabrobó,
etc.
Daí a necessidade urgente do zoneamento ecológico-econômico
de toda bacia com área de 640.000 km², por meio de parcerias entre
o governo e a iniciativa privada. Isto já vem sendo executado de forma
incipiente pela Aíba, uma associação de empresários
rurais em Barreiras/BA.
Não podemos, nos dias de hoje, trocar água por terra, tão
escassa e preciosa ela é. O que se espera é uma mudança
de paradigma. A verdade é tão cristalina quanto as águas
da Casca D}Anta: um grande rio não é apenas a sua calha principal.
E quanto à revitalização do Velho Chico, agrega algo de novo?
Gentil - Uma bacia hidrográfica deveria ser vista como um sistema de
vasos comunicantes desde as nascentes até a foz, com a água
circulando perpetuamente no ciclo hidrológico - desde as matas que
formam as nuvens e trazem as chuvas, descem ao lençol freático,
água subterrânea, nascentes, até as cheias anuais, hoje
represadas para usos múltiplos, não esquecendo da vazão
ecológica que deve seguir até o desemboque noutro rio ou no
mar. Daí a urgência de se preservar as matas ciliares e de topo.
De se ter controle sobre os agrotóxicos e de se manter um equilíbrio
dinâmico e robusto do rio e seus afluentes.
Vejo a chamada revitalização como uma oportunidade única
para um pacto entre os grandes usuários da bacia - energia elétrica,
irrigação, navegação, abastecimento, piscicultura
e outros. Esperamos que o Ibama, o MMA, o Ministério da Integração,
o governo de Minas, se entendam e implantem as unidades de conservação
já propostas ao governo federal e estadual, como a expansão
do Parque Nacional da Serra da Canastra-Samburá, do Parque Estadual
da Mata de Pains, interligando tudo isto pela APA das Dez Cidades-Mães
do São Francisco ou das Cabeceiras.
E rezemos todos para que unidades de conservação semelhantes
se estendam por toda a bacia e tenha início o saneamento com as ETEs,
a reciclagem do lixo, além do turismo como agregador de renda e emprego,
a educação ambiental permanente, e tudo o mais previsto neste
amplo programa.
E o que dizer sobre o desvio do rio São Francisco feito em lagoa da Prata?
Gentil - Enquanto a opinião pública brasileira exige a recuperação
do sofrido rio para as atuais e futuras gerações, situações
como esta do desvio em Lagoa da Prata continuam sem solução.
Digo aqui com humor que a primeira transposição já foi
feita e não pode perdurar. Esperamos que se tape logo aquele rombo
que cruzamos na Expedição Américo Vespúcio e vimos
a público denunciar 23 anos após, e se implante na "ilha"
surgida de uns 250 hectares, uma unidade de conservação estadual
ou municipal como medida mitigadora.
Voltar o rio ao leito natural e seguir o meandro é apenas cumprir o
que manda a lei. Que os herdeiros de Antônio Luciano Pereira cumpram
o que já foi decidido em juízo.
É muito grave também a situação das "pontes
do bagaço", das lagoas marginais e das matas ciliares a montante
e a jusante das pontes. Caso nada seja feito, fica bem lá uma placa-epitáfio
assim: "aqui jaz um rio", no "pescoço degolado do Velho
Chico".
A nova nascente pode influenciar na transposição?
Gentil - Para mim um rio é um ser vivo. Tudo que se faz na cabeça
repercute nos pés e vice-versa. Como é polêmica esta questão,
devemos esclarecer que, primeiro, os novos dados surgiram por força
de uma expedição que percorreu o rio de ponta a ponta por ocasião
dos 500 anos da sua descoberta. Foi a primeira ação concreta
após o decreto de revitalização do rio, em junho de 2001.
Segundo, os ministérios do Meio Ambiente e da Integração
Nacional e o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
poderão utilizar os novos dados, de grande força simbólica,
tanto para a revitalização - o grande anseio de cada ribeirinho
da bacia -, como para a transposição - o grande anseio dos habitantes
do Nordeste Setentrional - para abastecimento de água potável.
Na minha opinião, a convivência com a seca é possível,
dentro de princípios e técnicas próprios já conhecidos
entre outros povos.
Por exemplo?
Gentil - Por que não criar um programa para o dry farming, a agricultura
seca e suas plantas resistentes como o sorgo granífero, amêndoas,
palma forrageira e tantas outras? As cisternas para captação
das chuvas e barragens subterrâneas, técnicas milenares que conheci
no Egito, Palestina e em Israel? A própria Embrapa/Cpatsa já
pesquisou e tem esses dados nas mãos, é só implantá-los.
Daí poderia surgir um grande programa de convivência com a seca
a curto prazo com a participação da própria comunidade.
Quanto à questão legal, como ficam o IBGE, a MEC, o MMA, o MI-Integração
Nacional?
Gentil - Bem, recomendamos à Codevasf encaminhar o documento conclusivo
ao IBGE e outros órgãos do governo federal para homologação
oficial, inclusive para o Ministério da Educação. Todo
esse estudo pode ser contestado ou não, mas há que ter uma palavra
oficial e final. Só assim teriam fim os inúmeros dados conflitantes
referentes à extensão e altitudes das nascentes do rio da integração
nacional.
Lembro-me que por ocasião do levantamento, o prefeito Cairo Manoel,
de São Roque de Minas, disse que "até que enfim poderemos
informar com segurança aos estudantes, professores e jornalistas que
ligam e escrevem de todo o Brasil sobre os dados que vocês vieram levantar".
Grande prefeito, que não perde de vista a importância e o contexto
histórico das nascentes que ocorrem no seu município, sede do
fabuloso Parque Nacional da Serra da Canastra, que esperamos, digo mais uma
vez, seja estendido até as vertentes do Samburá, com suas paisagens
cênicas, palmerianas, que encantaram minha vista. Então duas
rústicas e grosseiras placas de arenito poderão indicar:
“Parque Nacional da Serra da Canastra-Samburá
Nascente Histórica Município de São Roque de Minas-MG”
ou então
“Parque Nacional da Serra da Canastra-Samburá
Nascente Geográfica Município de Medeiros-MG”
Então, convenhamos, não há nada a perder, só a
ganhar. São coisas do legendário e fabuloso rio São Francisco.
Coisas que só ele é capaz de ser e de ter.
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