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Tiago Severino

O apito do vapor Benjamim Guimarães dá o sinal da partida. Na margem, a população vê uma cena que há 21 anos não acontecia: a única embarcação movida a lenha no mundo parte para uma viagem no Rio São Francisco. O destino é a cidade de São Romão, distante 165 quilômetros. O percurso dura três dias. No roteiro, apresentações de grupos folclóricos, teatro e visitas as cidades proporcionam aos passageiros a oportunidade de conhecer a riqueza cultural da região.



(fotos: DAYAN DE CASTRO)

Logo na saída do porto em Pirapora, o vapor zarpa ao som da banda de música 3 de Maio que toca Cisne Branco, o hino da marinha. A canção traduz toda a beleza do Benjamin Guimarães que cruza o São Francisco: “Qual Cisne Branco que em noite de lua / (...) / O meu navio também flutua”.

A IGREJA DE PEDRAS

Vencidos os primeiros 30 quilômetros, o Benjamin chega ao distrito de Barra do Guaicuí (município de Várzea da Palma). A localidade tem a construção mais antiga da região: a igreja de Bom Jesus de Matozinhos de 1650. Para erguer, as paredes, formar o arco central e o púlpito, os escravos levaram 35 anos. O trabalho foi orientado por padres jesuítas. A igreja não chegou a ser concluída, por causa das freqüentes enchentes.
O que mais chama atenção é uma gameleira que cresceu em meio a uma das paredes. O secretário municipal de Turismo, Moises Vieira Neto, explica que provavelmente a semente da árvore foi trazida por um pássaro. “Como ela é feita de pedra, areia e barro, o crescimento ocorreu de forma natural”, diz. Do período colonial, ainda existe um acervo de 13 imagens sacras, inclusive uma de São Miguel avaliada em R$ 110 mil.
A partir de Guaicuí, o azul do São Francisco ganha uma tonalidade mais escura. O motivo é o encontro com o Rio das Velhas, que sofre com a proliferação de cianobactérias. Os microorganismos dão uma coloração esverdeada ao rio. Mas, esta é a única alteração na paisagem. No céu, as garças continuam a voar em bando a procura de um bom lugar para pescar. Na beira d´água, os ribeirinhos se encantam com a passagem do vapor e dentro do Benjamin, os olhos atentos observam o horizonte à espera do próximo destino.

EMOÇÃO DA CHEGADA

Em Ibiaí, ao invés de um porto, uma praia foi o ponto onde o vapor atracou. Entre a equipe muita preocupação, com bancos de areia que poderiam provocar um encalhe. Porém, sem nenhum problema, o comandante da embarcação, Cassiano José de Castro autoriza o lançamento da âncora e a descida dos passageiros. Cerca de 400 pessoas aguardavam a chegada do Benjamin. Emoção e curiosidade foram as sensações despertadas no público. Nos mais jovens, o encanto de ver pela primeira vez o único barco a lenha do mundo. “O vapor é gigantesco, parece um desses navios que a gente vê na televisão”, comenta o estudante Rafael Alves da Silva de 14 anos.

Para os mais velhos, a visita do Benjamin fez reviver o passado. “Quase chorei quando o vi se aproximando”, afirma Albertina Fernanda Coelho, 51 anos. “Todo o mês, ia de vapor até Pirapora, para buscar o pagamento da minha mãe. Na época ninguém tinha carro, por isso, sempre estava cheio de gente. Não importava se era rico ou pobre, todo mundo adorava navegar pelo rio”, conta.

Na praça, a festa durou até a madrugada. O forró ditou o ritmo da alegria. Às 7h30 do dia seguinte, o apito do vapor sinaliza que é hora de continuar a descida do Velho Chico.
Até o distrito de Cachoeira do Manteiga (município de Buritizeiro), foi possível perceber a destruição das matas ciliares na margem esquerda. Durante todo o percurso, áreas erodidas, sem cobertura vegetal, vão reduzir a profundidade do rio em 40 e 70 centímetros após a próxima cheia. Talvez, por este motivo o folclore e a música na parada seguinte tiveram um tom de defesa ambiental.

VIDA AO VELHO CHICO

Duas faixas saudando os passageiros, indicavam que o vapor havia chegado a Cachoeira do Manteiga. Na margem, crianças recepcionam os passageiros. Um singelo presente oferecido ao grupo de viajantes transmite mensagens de paz, amor e felicidade. Os pedidos são somados ao de preservação do Rio São Francisco feito por Severino Ramos de Oliveira.
Óculos escuros e violão no peito, Severino canta a dor sertaneja pela morte lenta do Velho Chico. No repertório, predominam as letras que falam da exploração da natureza pelo homem. Ele é deficiente visual desde criança e diz que “não é preciso enxergar para saber que o São Francisco está morrendo”.

DESTINO FINAL

O atracamento em São Romão estava previsto para 19h30. Mas, segundo o comandante Cassiano, o bom funcionamento da caldeira e o empenho da tripulação possibilitaram a antecipação da chegada para as 17h30. Como nos outros lugares, a população se reuniu para observar o trabalho dos marinheiros. Manobrar o vapor, jogar a âncora, amarrar a embarcação exigiu força e precisão da equipe.

“Estar em São Romão representa uma vitória para a tripulação”, comenta emocionado o comandante. “Foram 21 anos, sem viajar neste trecho. Contrariamos o pessimismo daqueles que afirmava ser impossível fazer a viagem”, ressalta.
Antes das apresentações folclóricas, a banda de música 7 de Setembro se apresentou no porto. Ela foi criada em 1907. Hoje, tem 12 músicos com idade entre 15 e 60 anos. O maestro Mário de Almeida conta que já viveu uma aventura em uma das embarcações que viajavam o rio. Em 1952, ele, junto com outras 70 pessoas, ficou por 14 dias encalhado em uma banco de areia no vapor Venceslau Brás. Mário estudava em Pirapora e ia para casa passar férias. “Foi a melhor experiência da minha vida. Namorei e diverti”, lembra.
Na madrugada, quando todos dormiam, uma surpresa: um grupo de seresta homenageia os visitantes. É o fim da viagem no Benjamin Guimarães.

BENJAMIN GUIMARÃES: A HISTÓRIA DO VAPOR

O vapor foi construído em 1913 nos Estados Unidos. Ele navegou no Rio Mississipi, depois em rios da bacia amazônica, até ser adquirido por uma empresa de Pirapora. Em 1963 ficou sob a guarda do serviço da Comissão do Vale São Francisco (CVSF). Ele passou por diversas reformas. A mais recente a troca da caldeira.

O vapor Benjamin Guimarães é o remanescente de um grupo de 30 vapores que entre 1930 e 1960 navegaram o Velho Chico (como é chamado o São Francisco). A hidrovia era o único meio de ligação entre as regiões sudeste e nordeste do Brasil. Cargas e passageiros eram levados, desde Pirapora (onde começa o trecho navegável do rio) até Petrolina (PE). Credita-se à navegação o desenvolvimento sócio-econômico do médio e baixo São Francisco. (TS)

TEATRO EM CACHOEIRA DO MANTEIGA MOSTRA A DEGRADAÇÃO DO RIO

No segundo dia de viagem, o vapor Benjamin Guimarães chegou a Cachoeira do Manteiga (município de Buritizeiro), onde 15 crianças encenaram a peça “Vida ao Velho Chico”. A história mostra como os seres humanos poluem o meio ambiente e as respectivas conseqüências para as comunidades ribeirinhas, em especial, as lavadeiras, os produtores rurais e os escadores.

No teatro, por estar debilitado por causa da poluição, o São Francisco resolve enviar uma carta aos homens, onde expressa sua indignação com tratamento que está recebendo. Iara, a sereia da mitologia brasileira, recebe a missão de entregar a mensagem. Ela é repassada a uma ribeirinha que em tom grave a lê para a sua comunidade.

CARTA DO RIO SÃO FRANCISCO AOS HOMENS:

No passado já fui forte. Gozava de bela saúde. Mas, aos poucos me enfraqueceram com suas covardes atitudes. Minhas águas são como sangue, que dá vida com abundância. Mas, os homens estão me matando com sua ignorância.

Começaram com as barragens. Destruíram cachoeiras. Poluíram meus afluentes, jogando muita sujeira. As matas foram derrubadas sem nenhuma obediência. Agora, não adianta chorar: vão sofrer as conseqüências.

Sirvo de aconchego a “beradeiro” e pescador, mas em troca me destroem. Esta é a recompensa sim senhor!

Os homens tanto destruíram, pensando só em riqueza, mas aqueles que matam o rio estão tirando o pão da pobreza. Nessas linhas que lhe escrevo, não é para afrontar ninguém. Mas se conseguirem me matar, vocês morrerão também.
Terminando essa missiva só me resta agradecer. Tudo está em suas mãos. Pense bem no que irá fazer! (TS)

PACOTE TURÍSTICO: VIAGEM POR R$ 2.800

A viagem no vapor Benjamin Guimarães faz parte de um pacote turístico vendido por uma empresa de turismo. O preço vai ser em torno de R$ 2.800. O percurso feito entre Pirapora e São Romão, nos dias 27 e 29, foi exclusivo para a imprensa e reuniu 15 jornalistas de todo o Brasil. As viagens para os turistas começarão a partir do mês de fevereiro.


Copilado da reportagem do jornal O NORTE DE MINAS
Parabéns ao amigo Tiago Severino pela excelente matéria.
As fotos são do fotografo: : DAYAN DE CASTRO)

Leia mais sobre o rio, click na imagem
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Benjamim Guimarães: cruzeiro no Velho Chico