A nova nascente do rio São Francisco
Pesquisador descobre novas verdades sobre o Velho Chico: ele não nasce
na Serra da Canastra, onde está a cachoeira Casca D´Anta, e tem
novas medidas geográficas
Silvestre Gorgulho, de Brasília
Entre os muitos estudos, histórias e causos que freqüentam o legendário rio São Francisco, um merece atenção muito especial: a verdadeira nascente do Velho Chico não está no Parque Nacional da Serra da Canastra, onde fica a belíssima cachoeira Casca D´Anta, que maravilhou bandeirantes e portugueses e continua a ser destaque na exuberante paisagem da região. Aliás, foi justamente essa exuberância que extasiou os primeiros desbravadores e naturalistas, como Saint-Hilaire, que preferiram dar ao São Francisco um berço mais nobre. As novas verdades sobre a correta nascente do São Francisco já foram objetos de discussão em pelo menos três congressos de sensoriamento remoto e, agora, estão comprovadas por uma equipe de técnicos que usaram imagens de satélite e medição por GPS geodésico.
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus e ao São Francisco o que é do São Francisco. Sobretudo, a correta certidão de nascimento. Como se vai revitalizar um rio se mal se sabe seu tamanho? Nem onde nasce? Essa é a questão colocada nesta reportagem que anuncia o resultado do relatório final de uma equipe técnica Codevasf(a), coordenada por Geraldo Gentil Vieira, que dá uma guinada geográfica de 180 graus no local de nascimento do mais importante, polêmico, usado e expoliado rio brasileiro: o rio São Francisco, chamado de rio da integração nacional. Depois de percorrer toda extensão do São Francisco na Expedição Américo Vespúcio e de concluir o relatório da Codevasf, Geraldo Vieira pode anunciar: a beleza e a exuberância da cachoeira Casca D´Anta roubaram a verdadeira nascente do São Francisco, encurtando-lhe vários quilômetros(b). Pelos cálculos e estudos da equipe técnica, os dados geográficos do Velho Chico mudaram. Vieira, vários espeleólogos(1) e canoístas já sabiam disso: a verdadeira nascente não é onde todo mundo estuda, na Serra da Canastra, descendo em cachoeiras para formar a belíssima Casca D´Anta, no município de São Roque de Minas. E sim no planalto do Araxá, no município de Medeiros. É esta história fantástica, guardada num segredo de sete chaves, que a Folha do Meio Ambiente conta, em primeira mão, aqui e agora.
Lendas, histórias de pescadores, causos, verdades e mentiras povoam as margens dos rios. E as margens do rio São Francisco, que atravessa três biomas(2) cinco estados e muitas culturas não fica atrás: é riquíssima em histórias e estórias. Mas nenhuma delas é tão forte como esta que o engenheiro agrônomo, técnico da Codevasf e idealizador da Expedição Américo Vespúcio, que percorreu toda extensão do rio durante 35 dias, em 2001. Vamos explicar melhor: a Expedição Américo Vespúcio foi a primeira viagem de caráter nitidamente ambiental e cultural a percorrer em barco o rio São Francisco de ponta a ponta, das nascentes à foz. Foi concebida e organizada por Geraldo Gentil Vieira, em função da revitalização da bacia por ocasião dos 500 anos de sua descoberta. Objetivo: realizar o mais amplo diagnóstico itinerante de todo o São Francisco.
(a) Equipe de trabalho da Codevasf: Geraldo
Gentil Vieira (eng. agrônomo), Leonaldo Silva de Carvalho (agrimensor),
Miguel Farinasso (eng. agrônomo), Paulo Afonso Silva (eng. civil) e
Rosemery José Carlos (geógrafa).
(b) O comprimento do rio São Francisco não tem unanimidade:
segundo a Delta Larousse de 1971, ele tem 2.624km; mas para a mesma Delta
Larousse de 1986, sua extensão é de 3.161km. Na Mirador, seu
comprimento também é de 2.624km; e para os sites oficiais da
Codevasf, Chesf e Cemig o comprimento é de 2.700km. Assim, vemos uma
grande variação numérica nas dimensões do rio.
Pelos dados destes sites a diferença da nascente da Casca d´Anta
para a nova nascente do rio Samburá é de 49,18 km. Levando-se
em conta todos os diferentes dados, a nova nascente já apresentada
no Congresso de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento em BH 2003 e no SpeleoBrazil2001,
o comprimento do São Francisco fica maior pela vertente do Samburá.
O próximo passo será encaminhar o trabalho ao IBGE para homologação
oficial.
O próprio Geraldo Gentil Vieira começa
a contar a verdadeira história da nascente do São Francisco,
tão logo voltou da expedição: "Ao retornar aos quadros
da Codevasf em 1999, queria tirar uma dúvida. Afinal, nasci e vivi
nas barrancas do rio São Francisco, na cidade de Iguatama, em Minas
Gerais. Queria saber a extensão exata do Velho Chico e descobrir sua
verdadeira nascente". Na verdade, Gentil Vieira sabe o valor das medidas:
"Tal como as pessoas têm a sua estatura, os rios têm suas
medidas. Alguns deles não estão contentes com a sua altura.
Assim, o orgulhoso Amazonas, o maior rio em volume de águas e até
bem pouco tempo o segundo em tamanho com 6.436km, é alvo atual de expedições
aos píncaros andinos e de intensas medições e avaliações
em modelos e imagens digitais para superar o faraônico Nilo, com os
seus 6.693km bem vividos".
E por que com o velho guerreiro São Francisco ocorre o contrário?
Por que teimam em encurtá-lo? Por que os 2.700km redondos? Gentil Vieira
responde com a autoridade de um descobridor: "Não concordo que
o São Francisco tenha menos de 3.001km de extensão. Conheço-o
desde menino. Sei que ele cai no Samburá, seu primeiro "grande"
afluente, que por sua vez já recebeu as águas do Santo Antônio".
E Gentil Vieira pergunta com razão: "Como um rio maior pode ser
afluente do menor? Como pode ser mais importante do que seu afluente? A verdade
é cristalina como as águas de todas as nascentes do mundo: o
São Francisco é afluente do rio Samburá".
Como o Pico da Bandeira até há alguns anos era o ponto culminante do Brasil e perdeu essa hegemonia para o Pico da Neblina, assim também parece acontecer com a nascente do São Francisco. Explicação? Gentil Vieira tem na ponta da língua, do lápis e do computador: "É só buscar imagens de satélite, fazer novas expedições para comprovar essa realidade. É só ir lá na confluência no cânion(3) de São Leão, uma beleza natural que poucos conhecem e ver as águas barrentas do São Francisco caindo no cristalino rio Samburá".
No século 17 os bandeirantes deliberaram e batizaram o curso principal do São Francisco fascinados pela majestosa cachoeira Casca d'Anta, apelidada de cachoeira catedral, do alto dos seus 162,828 metros. Segundo Gentil Vieira a nascente do São Francisco está a 98,12km acima do encontro com o rio Samburá. Enquanto o São Francisco nasce a 1.469 metros de altitude, o Samburá nasce no planalto de Araxá a 1.254,66 metros. O Samburá tem precisamente 147,30km de extensão até encontrar o São Francisco e o São Francisco exatos 98,12km até encontrar o Samburá. Desta confluência até a foz são 2.716km.
Novas medidas
Assim, desta óbvia constatação, surgiram os novos dados
do maior rio totalmente brasileiro: 2.814,12km para o trecho tradicional ou
histórico do rio, com as nascentes na serra da Canastra, e 2.863,30
km para o trecho dito geográfico do Samburá, que tem as nascentes
na Serra d´Agua, no pequeno município de Medeiros.
É bom salientar que todos da equipe técnica responsável pelo relatório final "Determinação da Extensão do Rio São Francisco" deixam claro duas coisas: primeiro, para dirimir a polêmica sobre o que é curso principal e tributário(4) uma ampla pesquisa foi feita em sites de universidades brasileiras e americanas, Unesco, dicionários cartográficos e geológicos; segundo, "o conceito que envolve deságua ou desemboca sugere que o afluente tem na confluência uma cota de talvegue(5) mais alta. Já quando se diz que o afluente é um rio menor que contribui para a vazão de um outro maior, há a dúvida sobre qual o critério de comparação: se o maior dos dois é o rio que tem maior vazão, extensão, largura (na confluência) ou maior na bacia de contribuição".
Nesta linha de raciocínio, Gentil Vieira explica porque a nascente então está no Samburá: "Na busca de dados geográficos mais precisos, comprovamos tecnicamente que a bacia hidrográfica, a vazão, a calha e a profundidade do Samburá são maiores. Para chegar a estes dados foram usadas imagens de satélite, cartografia adequada, visita às nascentes, e foi utilizado GPS geodésico Astech SCA 12S, teodolito Zeiss Theo 010, distanciômetro AGA210 Geodimeter e nível Zeiss. A equipe utilizou uma metodologia capaz de atender as escalas existentes". E conclui o agrônomo-ambientalista com autoridade de quem se embrenhou nas matas e campos, vasculhou palmo a palmo as margens de um e de outro rio: "Assim são os rios, assim são os homens. Ambos têm os seus humores e critérios". Hoje, já passados dois anos e concluídos os trabalhos da equipe da Codevasf, temos novos desafios: desengavetar e usar estes dados para uma próxima bandeira que será estender o Parque Nacional da Serra da Canastra até o Samburá. Temos que criar o Parque Estadual da Mata de Pains, de 6 mil hectares, unindo tudo isto pela Área de Proteção Ambiental das Dez Cidades-Mães do São Francisco(c) proposta que apresentamos no SpeleoBrazil2001 (13º Congresso Internacional de Espeleologia, 4° Congresso Latino-Americano e o 26o Congresso Brasileiro de Espeleologia, realizados em Brasília, com 43 países participantes) e ao governo federal, em 2004, no plano de revitalização do rio São Francisco".
Para os proprietários de terra tradicionais e os recém-chegados sojicultores à região, Gentil Vieira dá boa dica: "Todo este trabalho de preservação abrirá as portas para o ecoturismo. Algumas atividades predadoras, já vêm sendo substituídos por pousadas e hotéis-fazenda. Esse é um novo veio de ouro e diamante que gera emprego, renda e desenvolvimento sustentável na região. Na minha opinião, o turismo ecológico, o queijo canastra/pecuária de leite, a piscicultura, a fruticultura, o café e a cachaça de qualidade devem ser o carro-chefe da economia regional. Temos que acabar, paulatinamente, com as lavouras anuais altamente impactantes ao solo e corpos d’água do frágil ecossistema das cabeceiras".
(c) As dez cidades-mãe (ou das cabeceiras) do São Francisco são: Iguatama, Bambuí, Medeiros, São Roque de Minas, Vargem Bonita, Piumhi, Doresópolis, Córrego Fundo, Pains e Arcos.
Quem é Geraldo Gentil Vieira
Geraldo Gentil Vieira é engenheiro agrônomo pela Universidade Federal de Lavras-UFLA (1975), especializado em Irrigação e Solos pelo Instituto Interamericano de Ciências Agrícolas-IICA/FAO/Codevasf e Solos/Desertificação pelo The Egyptian International Centre for Agriculture-EICA, Cairo, Egito. Trabalha atualmente na Codevasf na área de Geoprocessamento. O mais importante disto tudo é que Gentil Vieira é um apaixonado pelas questões ambientais e vem se dedicando muito em pesquisa sobre recursos naturais e expedições, por isso foi o idealizador e coordenador técnico da Expedição Américo Vespúcio.
