Lenda
a) "A Acaiaca"
Próximo ao arraial do Tejuco havia
uma poderosa tribo de índios que viviam em constante luta com os tejuquenses,
que de vez em quando invadiam o arraial.
Perto da taba indígena, numa pequena elevação, havia
um belo e frondoso cedro que os índios, na sua língua, chamavam
"acaiaca".
Contavam eles que, no começo do mundo, o rio Jequitinhonha e seus afluentes
encheram-se tanto que transbordaram, inundando a terra. Os montes e as árvores
mais altas ficaram cobertos e todos os índios morreram.
Somente um casal escapou, subindo na Acaiaca. Quando as águas baixaram,
eles desceram e começaram a povoar a terra de novo.
Os índios tinham, portanto, muita veneração por essa
árvore. Acreditavam mesmo, que se ela desaparecesse, a tribo também
desaparecia.
Os portugueses que habitavam o arraial, conhecedores daquela crença,
esperavam uma oportunidade para derrubar a Acaiaca. No dia do casamento da
bela Cajubi, filha do cacique da tribo com o valente guerreiro Iepipo, enquanto
os índios dançavam em comemoração, os portugueses
derrubavam a árvore a golpe de machado.
Quando os índios viram por terra a árvore sagrada ficaram aterrorizados
e prorromperam em grandes lamentações, pois, conforme acreditavam,
o fim da tribo estava próximo.
Pouco tempo depois da morte da Acaiaca surgiu grande desavença entre
o cacique da tribo e os principais guerreiros. A desarmonia entre eles terminou
em uma luta tremanda que durou a noite inteira, ficando o chão coberto
de cadáveres: ninguém escapou.
Nesta noite fatal, uma horrível tempestade caiu sobre o arraial do
tejuco, arrancando árvores, rochedos e casas.
No dia seguinte, os tejuquenses, assombrados, não encontraram o menor
sinal da Acaiaca.
Dizem que foi a partir dessa noite que os garimpeiros começaram a encontrar
as pedrinhas brancas, os diamantes, que surgiram dos carvões e das
cinzas daquela árvore sagrada.
Cajubi ficou encantada em uma onça. Aparecia andando ereta com a cabeça
de uma onça. Tentava impedir os garimpeiros de coletar os diamantes.
b) "Caminhos subterrâneos"
Segundo uma lenda a Igreja de Nossa Senhora
do Pilar de Ouro
Preto foi construída sobre um rico veio de ouro. Conta-se que existia
um caminho subterrâneo que ia da Igreja até o local da antiga
Casa da Câmara e da Cadeia, atual Museu da Inconfidência.
Conta-se também que existia um túnel que levava até o
Morro da Queimada, e, através deste, os escravos de Pascoal da Silva
Guimarães tentaram salvar o ouro do seu senhor, na Revolta de Felipe
dos Santos, quando por ordem do Governador, o morro inteiro foi queimado.
Acrescenta ainda que muitos dos escravos morreram lá embaixo, em consequência
de desabamentos, e dizem que ainda é possível ouvir, de vez
em quando, suspiros profundos das almas danadas dos mortos.
c) "Imagem no lombo do burro"
Sobre a imagem de Senhor dos Passos que
fica no altar, à direita, na Igreja do Pilar de Ouro Preto, conta-se
que em 1927, foi transportada no lombo de burro , do Rio de Janeiro até
a atual Praça Tiradentes.
Ninguém sabia se a imagem pertencia à Igreja de Nossa Senhora
do Pilar, dos portugueses ou à Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
dos Paulistas.
Para que não surgissem mais disputas entre as duas partes de Vila Rica,
ficou decidido que a sorte resolveria a qual destas a imagem viria a pertencer.
A imagem foi novamente amarrada no lombo do burro, e ficou combinado que,
se o burro saísse na direção da Igreja de N.S. da Conceição,
iria pertencer à sua paróquia, mas caso o burro tomasse a direção
da Igreja de N.S. do Pilar, caberia à paróquia desta.
O burro tomou o caminho da Igreja de N.S. do Pilar e a partir daquele momento,
a imagem ficou pertencendo a esta.
Atualmente a imagem vai em procissão até a Igreja de N. Senhora
da Conceição, mas os devotos até hoje temem que a imagem
possa ser reconquistada pela matriz que a encomendou.
d) "O sumiço da cabeça de Tiradentes"
Após a execução de
Tiradentes, seu corpo foi esquartejado e sua cabeça colocada em uma
gaiola, presa a um mastro, na atual Praça Tiradentes. Ali deveria permanecer
até ser aniquilada pelo tempo. Em pouco tempo, a cabeça exposta
desapareceu do seu lugar.
Uma variável explica que alguns amigos de Tiradentes resolveram roubar
a gaiola com a cabeça. Conferenciou-se quanto à melhor maneira
de enganar a vigilância portuguesa. A primeira reunião, segundo
se diz, teria sido no prédio onde existe hoje o Hotel Pousada Ouro
Preto.
Numa noite fria e nevoenta, o guarda foi assaltado por dois homens mascarados.
Enquanto um, a sangue frio, estrangulou o soldado português, outro aproveitou
para desaparecer com a gaiola e o seu terrível conteúdo.
A cabeça de Tiradentes foi cuidadosamente embalsamada, antes de ser
colocada numa urna de pedra, hermeticamente fechada, depois de todas as cavidades
do crânio e os demais vãos da urna terem sido preenchidos com
ouro em pó.
Mito
a) "Mãe- do-Ouro "
O mito característico deste grupo é a Mãe-do-Ouro. Conforme estudo de Câmara Cascudo a Mãe-do-Ouro é indicadora de jazidas de ouro, madrinha dos veeiros, padroeira dos filões. Aparece em forma de chama ou meteorito. Os relâmpagos indicam a sua direção e os trovões revelam a sua cólera. (CASCUDO, L. C.) Manoel Ambrósio poeticamente: "Quando uma dessas bagas coruscantes tombam d'além, ouve-se ainda um fremito ingênuo que a civilização ainda não pode extinguir: - é ela ... é ela... a zelação, serpente Mãe-de-Ouro encantado, a cobra de cristas de fogo a zunir, mudando, afundando-se nas solidões das montanhas."
Aspectos sócio-históricos
"A Acaiaca ", lenda maior de Minas Gerais.
Após a restauração
do trono português das mãos dos espanhóis, os bandeirantes
receberam a incumbência de ampliar o território e descobrir riquezas
minerais. Receberam para isto, todos os poderes. Descobertos o ouro e o diamante,
uma nova ordem se instituiu na Região das Minas. Cabia explorá-la
com o maior proveito para a coroa portuguesa. O indígena não
poderia, a curto prazo, ser empregado no trabalho da mineração
e por isso foi afastado do processo civilizatório. A lenda Acaiaca
é bastante significativa e ilustra a história. A árvore
de cedro que sintetizava a potência da população indígena
foi cortada. O português já não precisa de pau-brasil,
não precisava da riqueza vegetal, tão importante ao indígena.
Cortando a árvore, cairia com ela o indígena, e em seu lugar
surgiria o mais cobiçado dos minerais: o diamante. A lenda, na forma
que apresenta, foi recomposta por Joaquim Felício dos santos para demonstrar
as origens do despotismo e da usurpação total do português
sobre o Distrito Diamantino. Henriqueta Lisboa sintetiza a Acaiaca com o seguinte
poema: - Aso olhos úmidos dos puris - Brasas e carvões da fogueira
- rolam os flancos da colina - transmudados em frias pedras - duras, amargas
diamantinas. (CUNHA, A.E. P. In: SANTOS: J F. 1956)
Em torno da disputa pela posse da imensa riqueza proporcionada pelso fartos
depósitos auríferos no século XVIII, paulistas e portugueses
conflitaram-se em cruenta guerra. Vitoriosos e derrotados conviveram-se na
mesma urbe, no meio das revoltas, das intrigas e das divergências. Vila
Rica foi dividida entre a frequesia dos portugueses e a dos paulistas. As
lendas "Caminhos Subterrâneos de Ouro Preto" e "A Imagem
no Lombo do Burro", nos levam aos climas de desconfianças, rivalidades,
segredos, discriminações social e racial, sedimentados na cultura
mineira. A cabeça de Tiradentes não poderia ter o tratamento
que os portugueses determinaram. Foi roubada e tratada com ouro em pó.
Por todas as regiões dotadas de riquezas naturais e quando descobertas,
provocaram o rápido povoamento e competitivas explorações,
com vantagem para os forasteiros e estrangeiros. Em Minas os portugueses foram
considerados forasteiros de vez que os paulistas foram os pioneiros descobridores
e os mineiros descobridores e os mineiros os seus herdeiros e continuadores.
Diante de forasteiros poderosos e dominadores só restou a clandestinidade.
Se os portugueses guardaram segredo de seus planos e jogaram o bote sobre
os mineiros a todo instante, a estes não restou mais nada senão
desconfiar de tudo e de todos: As histórias foram transformadas em
lendas e os projetos em conjecturas.
Esta é a razão das notícias de existência de caminhos
subterrâneos em todas as cidades históricas de Minas, por onde
escoou riquezas fabulosas e que ninguém ficou sabendo para onde foram
e não se sabe quem as levou. Segundo Leonardo Álvares da Silva
Campos, muita gente até hoje procura as 50 arrobas de ouro, escondidas
em uma gruta, pelos escravos de Manoel Nunes Viana, na Guerra dos Emboabas.
MINERAÇÃO: ALMAS PENADAS E TESOUROS ENTERRADOS
Lendas
a) " Tesouro da Fazenda do Retiro "
A Fazenda do Retiro , em Mariana , era conhecida
como assombrada . Altas horas da noite arrastavam, pela casa, correntes de
ferro pesadas e ouviam-se os lamentos dos escravos torturados pela flagelação
que dilacerava os corpos dos escravos.
Um dos últimos moradores do velho solar, Antônio Fernandes Ribeiro
do Carmo, foi o único que teve coragem de dormir na Fazenda, a fim
de constatar o fenômeno.
Fumando tranquilamente, em dado momento, ouviu um grito de alarme. Corajosamente
entrou pela casa adentro, no escuro, intimando os que o pertubaram, para o
devido acerto de contas:
- Venha e diga logo o que deseja, alma de Deus! ...
- Posso sair?
- Sim - respondeu Ribeiro do Carmo.
À sua frente, à luz baça do azeite, caiu um braço
humano. Continuou Ribeiro do Carmo:
-Sim, pode cair, mas não à prestação. Venha tudo
de uma só vez.Em cada lugar do quarto caiu uma
parte de corpo humano, caindo finalmente a cabeça, que lhe falou tranqüilamente:
- Procure suavizar a pena dos que padecem no outro mundo , porque se negaram
a socorrer os necessitados embora acumulando riqueza. Ajuntaram muito ouro
que não puderam carregar. Nesta fazenda está oculto um grande
tesouro, que a ganância dos condenados escondeu.
Em seguida ruflou suas asas luminosas em busca do além.
No outro dia Ribeiro do Carmo espalhou a notícia assanhando a cobiça
de populares. Arrombaram o portão dos fundos e alojaram-se na fazenda.
Um gemido forte apontou o lugar exato em que se encontrava centenas de barras
de ouro.
b) "Tesouro da Fazenda Assombrada de Carandaí "
Contam que um jovem chamado Otávio
resolveu sair pelo mundo.
Caminhando algumas léguas pára em uma fazenda morta, abandonada
em face dos constantes assombros ali ocorridos. Do lado de uma senzala, a
casa de máquinas no alto e no engenho nos fundos; de onde ouvia-se
nítido o soar dos chicotes, vozes resignadas, submissas dos homens
de produção colonial, misturadas ao barulho das moendas que
como um diapasão suplicam liberdade. A escuridão densa quase
impedia sua passagem no assoalho que dá acesso aos fundos, local de
muitas mortes misteriosas.
Para improvisar um fogão, colocou duas pedras no sentido longitudinal.
Para comburente usou bagaço de cana seco. Logo que acendeu o fogo colocou
no espeto a linguiça de porco. O cheiro do delicioso recheio aumentava
o apetite do andarilho Otávio. Neste momento apareceu um gato preto
e rouba-lhe, num pulo felino, o gostoso assado.
-Ah! Não lhe farei nada, coitado está com fome exclamou Otávio.
Novamente tenta assar a linguiça. Outro salto do gato preto levando-a
na boca.
-Ah! Danado! Agora eu o pegarei na próxima!
Repetiu as duas primeiras tentativas. Preparou um laço e quando o pequeno
tigre voltou tentando o roubo foi pego e amarrado numa engenhoca dos fundos,
sendo possível preparar su alimentação que o fazia tranquilo.
Após forrar o estômago, refletiu e preparou-se para dormir. Forrou
o chão frio e deitou-se de costas. Muito cansado das andanças
diurnas, dormiu imediatamente.
De súbito foi acordado pelo tic tac dos tamancos de uma velha portuguesa,
alta e magra que caminhava em sua direção. Estático,
aguardou o aproximar da caveira daquela senhora idosa, que o aclamou com as
seguintes palavras:
- Fique quieto, meu filho , não sou deste mundo, mas nenhum mal lhe
farei. Escute-me! Sempre que venho aqui para pedir ajuda, o demônio
disfarçado de gato, vem e mata as pessoas. Mas você foi forte
e conseguiu amarrá-lo. Acompanhe-me.
A alma levou Otávio até uma figueira no engenho velho onde lhe
disse :
- - Sob esta árvore existem três barris de moedas de ouro. Você
deverá escavar até encontrá-los. Fique com a terça
parte e distribua o resto aos pobres para que eu possa entrar no céu.
Faz dois séculos que morri e estou andando pelo mundo sem salvação
por causa dessa riqueza enterrada.
Após cavar muito, Otávio viu o primeiro barril e a alma desapareceu.
O gato que se encontrava amarrado deu um estouro. O galo cantou e o dia amanheceu.
Otávio voltou para casa e foi cumprir o que a alma penada lhe ordenara.
Tornou-se um dos mais ricos de Carandaí.
c) "Tesouro da Fogueira de São João em Conselheiro Lafaiete
Contam que numa noite de São João, um bondoso agricultor, devoto de São João, resolveu fazer uma fogueira, em torno de um toco de árvore existente no terreiro. No douto dia, ao remover as cinzas da fogueira, rebaixadas do nível do solo, deparou-se com os arcos de um barril. Continuou limpando o buraco e encontrou grande quantidade de barras de ouro. Dizem que foi uma dádiva do céu ao fervoroso devoto de São João.
d) "O Tesouro do Isidoro"
Conta Anatólio Alves de Assis que
o sargento José de Oliveira Décimo, do 3º Batalhão
de Diamantina resolveu procurar o que Isidoro guardou em uma furna naquela
serra.
Numa determinada noite de lua cheia, ele e mais dois amigos se abarrancaram
e desceram em uma corda até o fundo da lapa. Em seguida José
de Oliveira pediu a Isidoro que fizesse sua alma aparecer e mostrasse onde
estava o tesouro, pois pretendia distribuí-lo com os pobres de Diamantina.
Súbito toda a lapa começou a tremer. Ruídos estranhos
se fizeram ouvir, como se alguém estivesse a arrastar correntes. Também
o rumor de açoites está no ar misturado com lamentos e gemidos,
como se um infeliz estivesse sendo supliciado com incrível ferocidade.
A voz de Isidoro faz revelações a José de Oliveira. Diz
que sua prisão se deu em conseqüência de uma traição,
tendo ele sido delatado por parentes de um de seus seguidores; que sua mãe
nasceu em 1758, quando o Cometa Halley cruzava os céus do Brasil e
que muitos dos de seus descendentes nasceram quando ele passou em 1834 e 1910;
que em 1986 o cometa voltará e que naquela oportunidade revelará
o lugar certo do tesouro.
Mito
a) "A Mulher de Sete Metros"
Onde hoje se localiza o Forúm de
Patos de Minas, situou-se o primeiro cemitério da cidade. Dali, segundo
a tradição, sai uma mulher de sete metros de altura e vai até
perto do monumento do Presidente Olegário Maciel. É a alma penada
de Lavi Lopes, fazendeira bastante rica e possuidora de muitos escravos, que
viajava muito, indo constantemente ao Rio de Janeiro, onde gozava dos encantos
da cidade. Era de grande perversidade, sobretudo para com seus escravos. Jogava
gordura fervendo nas negras, queimando-as porque elas não realizavam
os trabalhos de acordo com seu exigentíssimo gosto. Isto só
para martirizá-las. Umas das escravas tentou jogar a malvada dentro
da cisterna. A sua maldade era tão grande que, quando usava sapatos
de salto alto, pisava nos braços dos filhos dos escravos
quando estes engatinhavam, quebrando-lhes os braços e não permitia
tratamento e nenhum cuidado aos inocentes machucados.
Em razão disso, foi ficando isolada de todos e de tudo. Ninguém
desejava a sua companhia, e fugiam dela. Viveu muitos anos, tristemente, morrendo
já bastante idosa, abandonada e pobre. A sua figura, quando morta,
inspirava terror, pois não fechou os olhos, nem a boca, ficando com
a língua para fora. As crianças tinham pavor dela, e de seu
aspecto. Em sua antiga casa, ouviam-se, até há pouco tempo,
arrastar de correntes, ganidos e gritos de dor.
Aspectos sócio-históricos
Na época colonial os mineiros mais
abastados guardavam em casa peças e barras de ouro adquiridos na mineração
ou no comércio clandestino. A coroa portuguesa estabeleceu o coeficiente
de arrecadação em 100 arrobas do quinto do ouro. Não
chegando à quantidade estipulada a Administração da colônia
confiscava dos produtores o suficiente para completar a carga. O prenúncio
do confisco na forma das derramas colocava os produtores em pânico.
Muitos enterravam grande quantidade de ouro mantendo absoluto segredo, vindo
depois a falecer. Daí que durante muito tempo as notícias sobre
este ou aquele tesouro enterrado em determinado lugar foram verdadeiras.
Além da aquisição de metais preciosos os mineiros eram
perseguidos por instalações de fábricas clandestinas
de moedas de ouro.
Quanto aos diamantes a história registra situações mais
drásticas. A coroa portuguesa explorava diretamente por intermédio
da Intendência dos Diamantes.
Para assegurar a posse da riqueza dos portugueses usaram a mais terrível
força e o mais despótico dos poderes da América. A simples
notícia de uma pedrinha fora dos cofres da Intendência custava
ao detentor o açoite ou a morte. Daí que os diamantes e outras
riquezas eram enterrados em lugares secretos, como atesta o bilhete do padre
Brasão, deixado no século XVIII: Sepultei ao pé de uma
jabuticabeira o que não me pertencia, sendo duas garrafas de ouro e
três chifres de diamantes ". (ESTRELA POLAR, 1972) O tesouro do
Padre Brasão nunca foi encontrado. Mas muita gente em Diamantina é
testemunha de uma grande quantidade de moedas de ouro encontrada pelos operários
da Prefeitura quando consertavam um muro e que foi dividida entre eles.
O inconsciente coletivo é depositário de um extraordinário
vigor. É força viva que pulsa na alma da sociedade, tentando
responder as questões da vida humana. Repele a injustiça; reivindica
a distribuição condigna das riquezas naturais; dimensiona a
conceituação popular de gratificação pelo trabalho.
Isto parece ficar bem na lenda "O Tesouro da Fazenda do Retiro "
, quando o tesouro só foi liberado para uma posse coletiva. Em 1981
encontramos uma variável dessas lendas no Arraial dos Campos, município
de Itaúna. Numa noite fria recebemos em nossa homenagem a visita do
agricultor Walter Gonçalves. De início falou das dificuldades
e pobreza dos agricultores. Melhorando o grau de humor em sua conversa disse-nos:
"A solução é encontrar um tesouro enterrado em algum
lugar." Dissemos-lhe que não era fácil encontrar tesouros
e ele ppprontamente respondeu: "Pode ser difícil mais impossível
não é não." Diante de nosso silêncio Walter
contou a lenda de um homem muito corajoso que conseguiu enfrentar vozes para
desenterrar um tacho cheio de ouro ao pé de uma frondosa árvore
de carvalho, bem como a sua destinação social.
O que relata a lenda "Tesouro do Isidoro" é a biografia de
um escravo que rompeu com as ordens régias na luta pela libertação
de seu povo. A persistência desse conto oral, na boca do soldado José
de Oliveira, revela o sentimento do povo nas suas dificuldades para extrair
da terra os minerais preciosos, ao contrário dos privilégios
e facilidades dos forateiros.
No mito "Mulher de Sete Metros", podemos dimensionar a percepção
popular as arbitrariedades e dos abusos no sistema de escravidão. Aponta
uma sabedoria do povo em defesa dos direitos humanos.
AGRICULTURA E PECUÁRIA
Lenda
a) "Fazenda do Sobreira"
Conta - se que um português com o nome
de Manoel de Souza Sobreira, conseguiu escapar do Distrito Diamantino, com
um grupo de escravos, estabelecendo-se na Fazenda da Palestina, no Município
de Bonfim. Apossou-se de imensas terras e riquezas. Seu regime de trabalho
era férreo, indo desde a madrugada até tarde da noite, domingos
e dias santos.
Numa sexta-feira da paixão, não permitiu que paralisassem as
atividades da fazenda. Quando o escravo tentou colocar a canga na junta de
bois, um deles falou ao carreiro:
- Nem hoje ! ...
Logo em seguida o engenho começou a movimentar-se sozinho. O carro
a cantar parado e o moinho a mover-se sem água.
Sobreira muito assustado, fez uma promessa:
Se o assombro findasse imediatamente, construíria duas igrejas em seus
domínios. A de Nosso Senhor do Bonfim e a de Senhora Santana.
b) "O Boi do Capitão Bento"
A família do Capitão Bento
criou um boi- O pardinho- desde bezerro, amamentando- o a mamadeira.
O boi ficou apegado à família e esta também gostava muito
do boizinho.
O boi ficou grande e o capitão Bento resolveu vendê-lo por 50
mil réis. A família pediu, pediu para que não vendesse,
mas o capitão foi duro. Vendeu.
Tempos depois, o boi voltou sozinho para a fazenda do capitão.
Novamente o dono o vendeu. E logo depois o boi reapareceu. Tornou a vender
e o boi lá vinha de novo.
O capitão, que era ranzinza, resolveu matar o boi. Matou-o e enterrou-o
lá para a mata da fazenda. Mas não adiantou nada. Lá
para as horas mortas da noite, a alma do boi Pardinho reaparecia, próximo
da casa do capitão Bento e principiava a mugir, a mugir até
de madrugada.
Ainda hoje quem mora lá, ouve o mugido, longo e triste, da alma do
"Pardinho".
Mito
a) "O carro de Boi Encantado"
Perto de Januária, contam que, dentro
do Rio São Francisco existe um carro de boi encantado.
Nas horas mortas da noite, ele canta.
Esse carro, por ordem de sua dona, no tempo dos escravos, trabalhava até
aos domingos.
Numa vez, na hora da missa, quando o padre condenava o trabalho em dia de
guarda, o carro chegou no povoado e os bois se danaram a correr para dentro
d'água desaparecendo.
E ficou encantado.
De noite se ouve o canto do carro de boi.
b) "Vaqueiro Misterioso"
Outro mito característico deste grupo é o Vaqueiro Misterioso. Com a tradição de um vaqueiro sabedor de segredos infalíveis, destro, hábil e invejável cavaleiro. Ninguém sabe qual a sua proced6encia. Aparece quando os vaqueiros estão reunidos. Disputa e vence a todos os outros. Quando recebe o prêmio desaparece. Veste-se mal e monta um cavalo velho. Humilhado pelos outros vaqueiros acaba sendo o herói admirado por todos e desejado pelas mulheres. (CASCUDO, L.C.)
Aspectos sócio- históricos
Algumas lendas e mitos tiveram como origem
e função a preservação do direito de lazer. São
clamores contra o trabalho aos domingos e dias santificados, bem como o excesso
na jornada de trabalho. A lenda "Fazenda do Sobreira" o mito "Carro
de boi encantado ", falam de paralizações de engenhos e
carros de bois, por determinações sobrenaturais. Um agricultor
de Santana do Paraopeba, no município de Belo Vale, contou-nos a presente
lenda com mais alguns detalhes sobre a personalidade de Sobreira. Procuramos
saber se ele acreditava em tudo que a referida lenda dizia. Respondeu-nos
que um homem rico e carrasco como Sobreira só resolveria construir
duas igrejas quando estivesse ameaçado por coisas do outro mundo.
Na lenda "O boi do Capitão Bento", vamos buscar uma idéia
da contradição existente na pecuária extensiva do Médio
São Francisco. O vaqueiro, ao mesmo tempo em que procura a sua afirmação
na derrota do boi, procura aproximar-se do gado. A conquista carinhosa na
base do bom trato, chamando o gado distante para o curral, traduz a ambivalência
sensível na alma do vaqueiro. O mau trato e a estima aos animais é
uma questão que flutua na exposição da lenda. Ela aponta
a crueldade de proprietários e empregados contra os animais que oferecem
dificuldades na sua exploração como bem econômico. Para
castigar ou compensar a superação do valor estima, somente as
forças do além são eficazes na concepção
do discurso lendário.
Em palestra com diversos vaqueiros do vale do Jequitinhonha, procuramos saber
o que, em suas concepções, significava ser um bom vaqueiro ou
vaqueiro ideal. Do que disseram conseguimos extrair os seguintes: Que vaqueiro
ideal é aquele que sabe mais que o fazendeiro, tudo que se refere ao
gado; que não precisa ser mandado porque conhece todas as obrigações
e as cumpre nos momentos exatos; que trabalha em qualquer condição,
arriscando a saúde e a vida; que deve ser forte, dedicado e fiel ao
fazendeiro. Desta forma o "Vaqueiro Misterioso" é uma herança
do ideal do vassalo ou do cavaleiro medieval.
LENDA
a) "O Pescador Simão Corneta "
Contam que em Manga havia um pescador com
o nome de Simão Corneta. Muito pobre, casado e com muitos filhos, que
ficavam em casa famintos por muitos dias.
Certo dia saiu para pescar. Em cima do rancho apanhou o remo e as linhas;
encheu a cumbuca de isca, benzeu-se ante sde entrar na canoa e remou rio abaixo
ouvindo os barulhos das aves. Para espantar as moscas acendeu o seu cachimbo
de barro.
Chegando na barra do Rio Verde Grande encontrou outros pescadores que esperavam
pegar surubis de 70 quilos para cima. Iam dias, vinham noites e nada de peixes.
Depois de quatro dias de tentativas resolveu entrar no rancho de um velho
pescador que ele chamava de tio Ciríaco. Deitou-se no banco da sala
e adormeceu profundamente. Mais tarde Ciríaco e sua velha mulher passaram
a observar o pobre pescador que fingia dormir. A mulher perguntou ao velho
qual seria a razão do insucesso de Simão Corneta. Ciríaco
respondeu que Simão não conhecia os segredos do Rio São
Francisco. A velha pediu a Ciríaco que revelasse ao pobre pescador
os segredos o que recusou dizendo ser perigoso para Simão Corneta que
sendo jovem e belo não resistiria os tentadores encantos da Mãe-d'água.
Revelou apenas que a Mãe d'água gostava de aparecer à
meia-noite sobre uma pedra lisa e que era preciso ter coragem, jogar fumo
para trás e correr para ela não pegar.
Simão achou que o velho Ciriáco era bem sucedido nas suas pescarias
por causa das graças da Mãe-dágua e que já tinha
posse do segredo. Acabou com o fingimento de sono e levantou-se. Depois de
comer peixe com pirão, despediu-se do casal de velhos e pôs-se
a remar rio acima. O velho Ciríaco ficou preocupado vendo Simão
Corneta, sem o segredo, cada vez mais distante e a noite cada vez mais próxima.
A lua clareou o rio que parecia uma avenida de prata e era meia-noite; um
vento soprou forte; um galo cantou; vozes humanas e rumores de animais aproximavam
e Simão nada compreendia. De repente apareceu em cima dágua
uma casa branca como o algodão. Seu telhado era de escamas de peixe;
as janelas de ouro e as paredes de prata. Daquele palacete saiu a Mãe-dágua.
Assentou-se na pedra lisa penteando seus longos cabelos com um pente de ouro.
Simão ficou ali contemplando aquela maravilha até que a Mãe-dágua
se adormeceu deixando o pente de lado. Corneta pensou, então, levar
o pente com ele e foi como um gato até a pedra lisa. Quando conseguiu
colocar a mão no pente a Mãe-dágua deu grito agudo, muito
alto e desapareceu levando Simão em seu palacete.
Mitos
a) "Cavalo D'água"
Tudo o que a terra tem, o Rio São
Francisco também tem. Não é só em terra que há
cavalo.
Existe no rio o cavalo d'água.
Há dias em que ele relincha demoradamente.
É sinal de que vai fazer bom tempo.
Conta-se que certos pescadores já montaram no cavalo d'água,
mas para esta façanha tem de se submeter a duras provas e pedir licença
ao caboclo d'água, que é dono do cavalo d'água.
O cavalo misterioso e aquático do rio São Francisco cavalga
quase sempre ao amanhecer e ao cair do sol.
b) "Caboclo D'água"
Registra o professor Saul Martins a crença de pescadores e barqueiros do São Francisco, na existência de homens encantados que habitam o fundo do rio em cidades fantásticas. Contam longos casos de aparições e de ações malfazejas de um ou de outro caboclo d'água.
Aspectos sócio-históricos
Diz Afrânio Teixeira Bastos que o São
Francisco é um rio de contrastes que parece obrigá-lo a ostentar
um absolutismo sobre o vale. Ao mesmo tempo é fator de riqueza e de
miséria, de vida e de morte, de progresso e de atraso, de integração
e de dissociação políticas. Age como um déspota
insatisfeito, apenas interessado numa individual e cruel exibição
de força. (SANTOS, A T. 1960) Esta é também a concepção
do povo que vive em suas margens. Tudo de bem e de mal é atribuído
ao rio. Concordamos que o rio seja uma força natural, mas não
concordamos que os males sejam atribuídos a fatores geográficos
porque são tipicamente sociais. Esta evidência demonstra a lenda.
O pescador Simão Corneta foi vítima do competitismo, antes de
sair para pescar, na pobreza de seu rancho, de sua insegura canoa, na falta
de provisão e na sua solidão. Foi vítima do competitismo
durante o tempo de pescaria, pois não recebeu ajuda e nem solidariedade
de outros pescadores; Ciríaco foi hospitaleiro mas não foi solidário
com Simão, negando-lhe a necessária orientação.
Os mitos "Cavalos D'água", e "Caboclo D'água,
revelam o tipo social do pescador, da região de Januária, na
figura do barranqueiro, que vive a tradição da pesca. A sua
grande paixão é o rio, do qual tira o sustento e para o qual
dedica toda a energia. O cavalo d'água fa z a ligação
entre o mundo exterior próximo do barranqueiro e o mundo interior,
traduzido no amor pelas coisas do rio. O caboclo d'água representa
os perigos escondidos nas águas do grande rio.
Citação Bibliográfica:
BASTOS, Afrânio Teixeira. O Rio São Francisco e sua interpretação.
In: Januária na
Comemoração do centenário Belo Horizonte: Imprensa Oficial-
1960- pág.19
CASCUDO, Luis da Câmara. Mitos Brasileiros. Rio de Janeiro: Caderno nº 6 MEC /CDFB
CUNHA, Alexandre Eulálio Pimenta da. A obra menor de Joaquim Felício dos dos Santos. In: SANTOS, Joaquim Felício dos. Memórias do Distrito Diamantinao. Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1956
" Estrela Polar " , Diamantina, 23 de janeiro de 1972.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petropólis: Vozes, 1978
MELO, Veríssimo de. O conto folclórico no Brasil. Rio de Janeiro;
MEC/CDFB. Caderno nº 11, 1976-.
(fonte: http://www.asminasgerais.com.br/rio_doce/UniVlerCidades/index.htm
)
Com um pouquinho de paciência, leia o texto abaixo que nos retrata de forma mais literária mais alguns mitos e lendas das nossas Minas Gerais. Importante, porque podemos comparar as várias formas em que são contadas estas mesmas lendas em regiões diversas.
Um abraço a todos,
Mansur
| Copyright
© 2006 - 2008 - www.velhochico.net - Contato:
(38) 3741-1315 - 8823-0753 - Todos os direitos reservados. - Melhor
visualizado em 1024 x 768 |
