È impossível compreender a
“Medicina” dos sertões sem conhecer da vida do sertanejo.
Seu mundo estranho, suas crenças e, sobretudo o abandono ao qual essa
parte do Brasil desde o império, até os dias atuais esteve submetida.
Em “Os Sertões” Euclides da Cunha (S/d: 80) diz que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Só um “gigante” seria capaz de sobreviver em um meio tão hostil: A luta pela vida assume o caráter selvagem dos combates constantes com a terra árida e infértil. Sem expectativas de chuva, resta ao pobre apegar-se as novenas de S. José já que as autoridades só aparecem nas eleições, época de angariar voto.
Diante daquela trágica realidade da-se a transformação do homem: Brutal e cruel como a seca, forte como mandacaru. Em quanto o mundo moderno progredia, restavam os nossos sertões estacionados. Condenados a um primitivismo social e individual, vivendo em casebres sem reboco onde barbeiros encontravam viveiro ideal para disseminação da doença de Chagas. Sem saneamento básico, submetidos às enfermidades que lhe tornavam a vida insuportável. Quando não morria de gastro-enterite na infância, cresciam magricelas, deficiente em vitaminas e alma sobrecarregada de decepções. Acostumado à subalimentação crônica, à fome e à sede aguda, o jagunço adquire condições para não queixar-se quando lhe é dado enfrentá-las. “Fez-se homem, quase sem ter sido criança. Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão”. Um médico naquelas bandas, geralmente filhos das autoridades regionais, era quase um Deus.
Diante da adversidade transfigura-se o homem, e da figura vulgar do tabaréu, surge inesperadamente um “titã acobreado”, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias. Sejam na forma de jagunços, capazes de resistir em Canudos a inúmeras investidas do governo; seja na forma de Cangaceiros: Pereira, Brilhante, Silvino, Lampião, Corisco; que marcharam diretamente para a violência e atacaram sempre que julgaram necessário. "O itinerário de Lampião ‘bandido brasileiro’ é o de um revoltado social que se torna herói popular. Um revoltado incapaz, por falta de cultura, de teorizar sua própria prática de delinqüente e de propor uma leitura política para ela. Mas um rebelde que se insurge concretamente, de armas na mão, contra a hierarquia do poder no sertão, contra a justiça de classe, contra a ordem dos ‘coronéis’, contra uma sociedade colonial, e que, na sua escala, opta por uma contra-sociedade, a do cangaço”. È assim constituída a alma do tabaréu: sujeito a agressividade permanente do clima e da terra e ao abandono sócio – econômico. Está a sua disposição uma “Medicina rústica”, permeável á crendices: onde médicos e remédios, são necessariamente substituídos por curandeiros, beatos, preparados “mágicos” ou rezas que em enumeras vezes bastavam ao sertanejo.
Segundo historiador Frederico Pernambucano de Melo o isolamento fez com que o cangaceiro vivesse de forma medieval, no que diz respeito aos seus costumes, insensibilidade perante a morte e trato com o sangue. O menino sertanejo habituado a auxiliar seu pai a sangrar os animais com facas rudimentares para obtenção do seu sustento, quando adulto utiliza o mesmo método para dizimar o inimigo: “(...) Lampião, por exemplo, sangrava uma pessoa como o jovem fazia para matar um bode. Quando o bando castrou um de seus inimigos, a assepsia foi à mesma aplicada aos animais: cinza, sal e pimenta”. Essa insensibilidade e instinto em situações de emergência, aliados a certo tirocínio cirúrgico, demonstrado por alguns integrantes dos bandos de cangaceiros e ainda ao conhecimento básico da farmacopéia do sertão; foram fundamentais para manutenção da vida e reabilitação dos feridos de combates nos ermos da caatinga nordestina.
Lampião representava o cirurgião,
clínico, ginecologista, parteiro e até dentista do bando. Essa
mesma idéia, fruto da imaginação recreativa de muitos
autores e da fantasia popular permeada pela mítica do cangaceiro, foi
difundida por inúmeros autores estudiosos do movimento: “Praticavam
extrações dentárias
com pontas de punhais e alicates. Em seguida bochechos de mandacaru. Raspa
de juá evitava o aumento da cárie. Lampião, Zé
Baiano, Labareda e Virgínio eram os cirurgiões do cangaço”
. Dos remanescentes do Cangaço, uma figura peculiar e extremamente
curiosa foi sem dúvida Dadá, companheira de Corisco; valente
e destemida, deu contribuições significativas para o resgate
histórico sobre a vida de Lampião e seu
bando. Em depoimentos fornecidos ao escritor Antônio Amaury, um dos
maiores pesquisadores do assunto, a cangaceira declara que desconhece Lampião
removendo balas, amputando membros, realizando partos complicados e muito
menos arrancando dentes. “Arrancar um dente ainda não ‘amolecido’
pela piorréia é trabalho hercúleo (...) Portanto, afirmar
que lampião ou qualquer outro cangaceiro era ‘dentista’
é pura balela. O sertanejo, de um modo geral, tem dentição
forte, bem calcificada, haja vista sua grande ingestão de cálcio,
através de leite e derivados. Pelo menos até aparecerem às
afecções odontológicas endêmicas no sertão
nordestino. Pois um dente já sem sustentação, comido
pela placa bacteriana e pela piorréia, esse até uma criança
o arranca” .
Com base em relatos históricos podemos dizer que em inúmeros momentos, com um pouco de bom censo e muita coragem, vários procedimentos médicos improvisados, foram realizados de forma empírica e inclusive com algum êxito pelos cangaceiros; no entanto jamais poderemos nomeá-los “paramédicos”, mas seres munidos de um relevante instinto de sobrevivência e que atribuíam sua saúde ao fechamento do corpo, aos patuás e tinham ao seu dispor a farmacopéia aprendida com seus pais e avós. Nesse particular, merece destaque a já citada Dadá que em muitos momentos mostrou habilidade cirúrgica admirável, apesar de nunca ter freqüentado se quer uma escola de ensino médio.
Em fevereiro de 1939, nas proximidades da
fazenda Lagoa da serra-SE, Corisco foi atingido por um projétil de
arma de fogo que atravessou o braço direito e logo após o esquerdo,
resultando em fraturas expostas e grande hemorragia. Passado algum tempo,
começou a apresentar braços arroxeados pelos hematomas, edema
e perda de consciência.
Dadá aplicou-lhe uma mistura de pó de fumo nas feridas para
aliviar a dor . A analgesia deu-se provavelmente devido ao encobrimento das
terminações nervosas que estavam expostas. Dadá afirma
que posteriormente formou-se um abscesso na área lesada, fez uso de
um emplasto com farinha de mandioca e quando o pus superficializou procedeu
à drenagem . A farinha de mandioca quente, funcionava como um vaso
dilatador local, possibilitando uma maior irrigação sanguínea
e chegada de células de defesa que ao liberar moduladores químicos
contribuiriam para a resolução do quadro.
“Depois Dadá flambou, na chama de uma vela, a lâmina de
um canivete e fez uma incisão na altura do cotovelo esquerdo de corisco.
A abundante secreção sanguinolenta vazou o braço do cangaceiro
desinchou’ e o alívio da dor foi quase completo”
Embora a atitude corajosa de Dadá ao drenar os abscessos e debridar os ferimentos de Corisco, livrou-lhe de uma septicemia, deixou a desejar do ponto de vista funcional. A partir do episódio, o vingador de lampião só podia atirar com arma pequena, estava impossibilitado de segurar o fuzil . Lesões em abdome por arma de fogo ou arma branca, eram fechadas com agulha de costurar couro . A retirada dos projéteis era feita sem anestesia: “(...) Zé Sereno notou um ‘caroço’ no pescoço de novo tempo e perguntou: Que caroço é esse no seu pescoço, cumpadi? Será a bala do Ontoím dos pau preto? (...) Nisso, botou a faca no fogo, derramou cachaça no gume, espremeu o ‘caroço’ entre o indicador e o polegar e deu pequeno talho: A bala pulou longe!”
“Extraiam-se
as balas a cru na ponta do punhal, a luz dos candeeiros. Para a sede excessiva
quando se sentia perder a visão, os lábios grossos, a boca espumante,
conseguida a água, deveria ser servido aos goles, misturada com rapadura”.
Uma entidade bem conhecida dos médicos em geral é o choque hipovolêmico.
Síndrome decorrente da má perfusão tecidual, caracterizada
pela diminuição da volemia, secundária a hemorragia,
diarréia e trauma; o tratamento inicial consiste em debelar a fator
causal e repor volume . O tabaréu do sertão, empiricamente utilizava
a água com rapadura para evitar o mal; ou ainda água de genuílo
e arnica:
“Andaram mais um pouco e Corisco teve uma lipotímia (sensação
de desmaio) decorrente da hemorragia dos seus ferimentos. Pararam, Dadá
deu-lhe uma dose de cachaça de quixabeira, misturada com arnica e água
de genuílo. Logo a ferida voltou a si, criou forças e retomaram
a caminhada” . Nesse caso, é pouco provável que o choque
hipovolêmico tivesse se instalado, já que é fato, a impossibilidade
de reverter o quadro já estabelecido sem no mínimo, uma reposição
volêmica rápida com a substância predominantemente perdida,
além de oxigenoterapia .
Em meados de 1927, Lampião fugiu para o Raso da Catarina na Bahia.
Em suas andanças, chegou a uma das regiões mais secas e inóspitas
do Brasil, o povoado de Santa Brígida, onde vivia Maria de Déa,
que mais tarde seria conhecida como Maria Bonita:
Primeira mulher a fazer parte do cangaço (Os Caminhos da terra: 1998).
A novidade abriu espaço para que outras mulheres acompanhassem os cangaceiros;
trazendo consigo um grande problema para o bando, a gestação
e o parto. “A gravidez no cangaço era uma grande preocupação
para os grupos. Além de serem redobrados os cuidados com a segurança
do bando, eles procuravam lugares ermos, fora da rota de volantes, mas próximos
a coiteiros de confiança e, eventualmente, de uma boa parteira”.
As crianças
não eram amamentadas pelas mães naturais, mas deixadas com amigos
de confiança em coitos seguros. Assim ocorreu com Expedita Ferreira,
filha única de Lampião e Maria, que logo após o nascimento
foi entregue pelo pai a um casal que já tinha onze filhos; durante
os cinco anos e nove meses que viveu até o falecimento do seu pais,
só foi visitada três vezes (Os Caminhos da terra: 1998). A vida
no cangaço já era perigosa e sacrificante para homens feitos;
imagine para uma criança indefesa. Em Antônio Amaury e Leandro
Cardoso (1995: 87-89), o auxílio de parteiras constituiu exceção
no cangaço, a
falta de assistência ao parto, em algumas situações implicou
em óbito dos recém-nascidos. Assim das gestações
de Maria Bonita, somente uma criança conseguiu sobreviver; justamente
a que veio ao mundo pelas mãos de uma parteira. O parto trans-vaginal,
normalmente evolui de forma espontânea; para isso, é preciso
que o canal, as contrações uterinas, musculatura abdominal e
pélvica, além do feto e seus anexos interajam de forma harmônica.
O surgimento de anormalidades nesses fatores pode levar a distocias,
determinando impossibilidade de progressão do parto por via natural,
culminando com
morte da mãe e, ou do concepto na ausência de assistência
adequada . Como exemplo, temos o de Adelaide de Criança que morreu
em 1936 nas caatingas sergipanas, após uma provável distocia
.
Os partos
eram realizados em condições precárias e sem o mínimo
cuidados com mãe e filho: “As bandidas tinham partos normais,
sem nenhuma higiene. O umbigo do menino era cortado com unhas e não
contraíam tétano”.
Inúmeras afecções poderiam colocar em risco de vida a
cangaceira grávida nos ermos da caatinga, sem médicos e assistência
pré-natal: o abortamento e suas complicações, diabetes
gestacional, trauma abdominal, hipertensão materna; além de
descolamento prematuro da placenta, choque hemorrágico e apresentações
anômalas. Embora não tenha registros precisos, tudo leva a crer
que a mortalidade materno-fetal nos bandos não era desprezível,
já que não havia o mínimo de planejamento familiar, assistência
pré-natal e assistência ao parto. Tripé esse responsável
pela redução da morbidade e mortalidade perinatal nos dias atuais.
Os anais do cangaço registram ainda fatos curiosos; empiricamente os
tabaréus eram capazes de perceber a gravidade de alguns quadros, realizavam
diagnósticos e até prognósticos. Dessa forma, quando
um projétil de arma de fogo penetrava o abdome e o sangue saia de cor
escura, significa gravidade, o que muitas vezes se confirmava pela morte do
enfermo . A explicação desse fato deve-se a uma provável
lesão de
uma veia calibrosa, como a veia cava ou veia hepática, ou ainda uma
lesão de órgão maciço, como o fígado o
que levaria a uma grande perda sanguínea e até morte por choque
hipovolêmico (Araújo e Fernandes: 1995, 90). Outra prática
curiosa utilizada para o prognóstico de lesões no abdome era
cheirar a ferida; no caso de cheiro de fezes o prognostico era sombrio. “Se
os intestinos foram perfurados, tratava-se de preparar a rede para enterrar:
fedeu a cocô, fede a defunto” . As lesões do intestino
grosso, em virtude da flora e das características anatômicas
e fisiológicas do órgão são acompanhadas de índices
consideráveis de mortalidade. Para se ter uma idéia, na Guerra
Civil Americana a mortalidade devido às lesões de cólon
estava próximo de 100% e durante a I Guerra Mundial ficou em torno
de 60% . Nesses casos, o material
fecal leva a uma irritação do peritônio, ocasionando uma
peritonite fecal, com evolução para septicemia e morte .
Farmacopéia Cangaceiro
A farmacopéia
do cangaço não difere em nada, da utilizada pelo sertanejo em
geral.
Nas comunidades mais atrasadas, mesmo após o advento da indústria
farmacêutica, que no Brasil só aconteceu no início do
século XX, o alívio das dores era procurado nas qualidades terapêuticas
de algumas plantas ditas medicinais. Até hoje o socorro médico
está ligada a praticas rústicas aprendidas com negros, portugueses
e índios. Para Mario Souto Maior a medicina popular constitui conseqüência
de uma preocupação humanista de aliviar o sofrimento humano.
Atividade do curandeiro e de seus usuários, decorre de uma vocação
médica, de uma constante observação da fármaco-dinâmico
de plantas, aliados a um conhecimento precioso a respeito de vegetais de efeitos
medicinais maravilhosos, mas que mal utilizados podem trazer resultados danosos
ao usuário.
Tal conhecimento é fruto de séculos de experimentações e ainda que permeados por erros e riscos se mostrassem muito útil ao tabaréu, visto que no sertão era rara a presença de um médico. Para se ter uma idéia, os cangaceiros só conheceram as propriedades do ácidoacetil- salicílico em 1929, através do Capitão-Médico do exercito Eronildes de Carvalho que ofereceu um comprimido do analgésico para um bandoleiro com dor de dente (Araújo e Fernandes: 2005, 131). Não é incomum observamos uma estranha junção entre chás, lambedores, efusões, emplastos, defumadores; mas também benzeduras, simpatias e orações que os cangaceiros utilizavam para cura das suas doenças.
A farinha,
além de alimento indispensável, era utilizada como emplastro,
no tratamento dos abscessos. Os matutos acreditavam que o emplastro quente
com farinha, sobre regiões inflamadas evitava que a lesão “viesse
a furo”. Para Araújo e Fernandes a melhora do quadro se devia
a vaso dilatação decorrente do calor local e conseqüente
chegada de um maior número de leucócitos, o que em última
instância abreviava o processo inflamatório.
Já o fumo em pó era utilizado sobre feridas abertas, com objetivo
de evitar infecções secundárias, ovo posição
de moscas varejeiras e miíase..
Segundo o ex-cangaceiro e escritor Joaquim Góis, Lampião e seus
“cabras” traziam como parte integrante do seu” carrego”
uma botica improvisada com tintura de iodo, pó de Joannes, água
forte, pomada de São Lázaro, linha e agulha, algodão,
um estojo de perfumes com brilhantina, óleo extratos e essências
baratas.
Em depoimentos fornecidos por Dadá, a cangaceira relatou que ao abraçar a profissão, os homens levavam “meizinhas” , plantas, misturas e alguns produtos como cachaça, álcool e água oxigenada. Para Araújo e Fernandes embora esses produtos não tenham eficácia comprovada, é notável a ação antimicrobiana do álcool e peróxido de hidrogênio, principalmente contra o Clostridium tetani, causador do tétano. O Juá e a arnica são elementos fundamentais para o sertanejo no tratamento de grandes traumatismos decorrentes de quedas, acidentes, esmagamentos, facadas ou tiros. O emprego das cascas de jenipapo nas luxações, fraturas e contusões era uma prática comum. Em traumatismo ocasionado por coice de burro usavam um emplasto de mastruço, carvão moído e esterco de animal. O chá de quixabeira também era recomendado para cicatrização . A raspa do pau de quixabeira era misturada com álcool ou cachaça e ingerida ou colocada sobre o ferimento; segundo os cangaceiros a ingestão dessa mistura reanimava e dava uma sensação de força ao doente.
No ferimento
à bala, aguardente, água oxigenada e pimenta malagueta seca
eram introduzidos através do orifício de entrada. Segundo alguns
sobreviventes, o tratamento era muito doloroso e mais angustiante do que a
própria lesão. Na vida errante do cangaço a quantidade
e qualidade da alimentação dependiam da situação:
Quando perseguidos, se alimentavam às pressas, as colheres eram substituídas
pelas mãos sujas em forma de concha, sem nenhuma higiene. Panelas de
barro, latas e batatas de umbu eram utilizadas para cozinhar os alimentos;
na maioria das vezes constituídos de carne seca de bode ou boi, rapadura
e farinha. Quando nos “coitos” livres dos “macacos”,
os cangaceiros se alimentavam fartamente, após as refeições
descansavam, contavam os” causos “e gargalhavam.
Meizinhas, amuletos e rezas eram utilizados para “fechar o corpo”
contra os inimigos ou para espantar cobras e animais peçonhentos, além
de recomendações no mínimo estranhas: dessa forma, mulher
menstruada era impedida de entrar nos quartos dos feridos de guerra,”
para não arruinar a ferida”. O tratamento de doenças venéreas
era feito com sumo de 12 limões bebido em jejum logo após o
sol nascer. Não podia olhar para mato verde e nem para mulher; banho
de rio nesses casos era proibido porque “ficava cego”, quando
atingia os testículos ou em casos de “mula” (linfogranulomatose)
o doente acocorava-se sobre o fogo. Se a afecção fosse o tétano,
o tabaréu se vestia de preto, ficava em um cômodo escuro e incomunicável.
Em lesões graves, dentre outros cuidados o doente devia evitar “pisar
em rastro de corno”.
Exemplos da farmacopéia cangaceira utilizada para o tratamento de enfermidades comuns nos bandos:
Cefaléia:
Folhas de algodão aquecidas e mascar o gengibre.
Faringite: Chá de formiga e gargarejo com sal.
Doenças reumáticas: Banha de capivara, chá
de osso de jumento, carne de cascavel.
Otites com leucorréia: Banha de traíra.
Asma: Banha de ema.
Constipação: Alecrim caseiro.
Sinusite: Alecrim salobro.
Diabetes: Jucá.
Epistaxe: Cheirar algodão queimado.
Otalgia: Tampões de folhas de algodão.
Entorses e luxação: Emplastro de clara de ovo
batida com breu e untar o local atingido,
com banha de ema.
Mordedura de cobra: Queimava o local da picada imediatamente
ou realizavam um
corte com faca afiada para escorrer o veneno.
Halitose: Mastigar folhas da goiabeira branca.
Hemorragia: Suco de arnica.
Cardiopatias e lipotímia: Chá de quiabo.
Epilepsia: Chá de perna de garça.
Ascaridíase: Erva de cruz.
Difteria: Banhos de sândalo e alcaçuz.
Hidrocele e hérnia: Banha de baiacu.
Enterites: Chá de erva cidreira, sarpinanga.
Escabiose: Raspa de côco misturada mistura com enxofre,
passando 8 dias sem molhar.
Verminoses: Lavagem de manipueira.
Impotência sexual: Chá de velame, chá
de cabeça de negro em jejum e água de arroz. À
pimenta e ao caminho em jejum chamavam “mingau levanta homem”.
Para suspender a menstruação: Semente de manjiroba
em infusão. Infusão de grão e café na aguardente,
durante 9 dias.
Febre alta: Suador de semente de melancia e a casca de angico
em água serenada.
“Fraqueza dos pulmões”: Leite de jumento
pela manhã.
Prisão de ventre: Chá de raiz da gitirana,
retirada do nascente.
Marcas de um Rei
As histórias do cangaço ainda permanecem vivas nas cidades do Nordeste. Relatos tristes e alegres são contados pela lira dos repentistas, imortalizados por livros, filmes e melodias como “mulher rendeira”, enquanto as crianças romantizam a vida errante, o heroísmo das batalhas e as “brabezas” de Lampião por esses sertões.
Mas a vida de quem escolhia o banditismo não era fácil, as fugas dos volantes, as refeições improvisadas, as enumeras noites insones em condições insalubres, as batalhas sangrentas, tornavam cada dia uma aventura árdua na luta pela sobrevivência. Lampião viveu 23 anos em guerra e passou por mais de 400 tiroteios, não é de admirar que tenha sofrido muitos ferimentos ao longo de sua vida de “fora da lei”).
Em entrevista fornecida ao médico, Dr. Octacílio Macedo, durante sua visita a Juazeiro do Norte quando foi convidado pelo padre Cícero Romão para integrar o Batalhão Patriótico contra a coluna prestes, Lampião informou já ter recebido quatro ferimentos importantes, dos quais, um na cabeça foi considerado por ele o mais grave, referiu ainda sofrer de “ligeiros ataques reumáticos” . A primeira lesão grave de Lampião se deu quando ainda fazia parte do grupo do Sinhô Pereira, em 1922. Na ocasião foi atingido na região inguinal, no braço direito e recebeu um tiro de raspão na cabeça. Foi atendido e medicado pelo Dr. Mota, médico de Vila Bella-PE, recuperando-se sem nenhuma seqüela. Em Março de 1924, nas proximidades da lagoa do Vieira (divisa de Pernambuco e Paraíba), foi ferido no tornozelo direito, ao mesmo tempo em que o jegue no qual estava montado fora mortalmente atingido, prendendo-lhe ao cair, o membro machucado (Melo: 1993, 151). O tiro deixou-lhe uma seqüela cicatricial devido à lesão importante no tendão de Aquiles, e, ou nos músculos flexores do pé direito. A partir de então passou a utilizar calçados de rabichos, com reforço na parte do calcanhar. Dessa forma o seu rastro tornou-se inconfundível, sendo fácil para os rastejadores identificaram o grupo de Lampião pela pisada.
Na Chacina em Angico, para certificar-se que um dos corpos decapitados pertencia ao cadáver de Lampião, valeu-se da cicatriz atrófica no pé direito de um dos mortos. Esse fato deve ter dado origem à crença de que o grupo de Lampião usava as alpecartas de forma contrária com o objetivo de confundir a polícia. Na verdade o reforço na parte do calcanhar impedia que o calçado saísse do pé lesionado, durante a deambulação.
Dr.José
Cordeiro de Lima, foi quem tratou do cangaceiro; a quem o médico se
referia sempre como “capitão” devido à bravura e
resistência demonstradas durante os procedimentos cruentos, nos quais
Virgulino não esboçou se quer um gemido . A figura do “monarca
das caatingas”, com o olho direito esbranquiçado, usando seus
óculos redondos, levanta uma polêmica há muito tempo discutida
entre os
estudiosos e amantes do cangaço: Seria lampião realmente cego
do olho direito? Qual a patologia responsável pela lesão ocular?
Muitos
referiam aos óculos de Lampião. Para alguns autores tratava-se
de uma coqueteira utilizada para
esconder o olho cego e de “vidro”. Para outros, os óculos
era uma necessidade, devido à fotofobia. Em “O Povo”, de
Fortaleza, é descrito na edição de 5 de agosto de 1928,
os óculos de lentes escuras, usados para esconder uma doença
que atingiu a córnea do olho direito. Em “Lampião”,
o escritor Ranulfo Prata faz referência a o olho direito cego, por um
garrancho de jurema, que lacrimejava constantemente. Leonardo Motta, célebre
folclorista cearense, assim o descreve: “(...) o olho direito branco
e cego, escondido pelos óculos pardacentos, de arcos dourados...”
(in: Araújo: 1982, p.76). A análise do laudo médico da
cabeça de Lampião, feito em Maceió - Al, pelo médico-Legista
da Polícia Militar, Dr. Lajes
Filho, nos leva a concluir que Lampião era funcionalmente cego do olho
direito: “(...) O olho direito apresenta um leucoma, atingindo toda
a córnea...” Segundo o relato do oftalmologista alagoano Dr.
Neves Pinto, na edição de 5 de agosto de 1938, a lesão
era irreversível: “(...) leucoma adberente central, na maioria
das vezes conseqüente de úlceras perfuradas de córnea,
e em vista da extensão das lesões, poderia
assegurar que o caso era incurável.” Refere ainda um cristalino
luxado no olho esquerdo, devido provavelmente aos violentos traumatismos sofridos
pela cabeça de lampião. Segundo Dona Mocinha, Virgulino já
possuía baixa da acuidade visual, mesmo antes de entrar no Cangaço;
assim como outros membros da família. Sendo as afecções
da córnea endêmicas no nordeste brasileiro não se pode
afastar a possibilidade de uma etiologia infecciosa como sarampo, tracoma
como causa do leucoma, fotofobia e lacrimejamento. Para a neta do cangaceiro,
a historiadora Vera Ferreira, em entrevista exclusiva a Agência Nordeste;
a lesão se deu em um combate, quando um tiro atingiu uma planta e o
espinho respingou no olho, já acometido pelo glaucoma . O glaucoma
é uma patologia, na qual a pressão intra-ocular está
em níveis tão elevados que pode resultar em dano do nervo óptico
e perda do campo visual, sendo o seu diagnóstico um grande problema
de saúde pública . È lamentável que mesmo nos
dias de hoje, as populações nordestina percam a acuidade visual
por causas que poderiam ser evitadas desde que medidas de diagnóstico
e tratamento fossem implantadas pelas autoridades responsáveis.
Na ocasião,
Lampião foi tratado pelo médico José Cordeiro de Lima
(destaque pela atuação na luta contra o tracoma no Cariri cearense),
que retirou o corpo estranho do seu olho e como não se dispunha de
antibióticos na época, provavelmente só foi realizada
profilaxia de lesões secundárias e anti-sepsia, concorrendo
para uma cicatrização descomplicada. Diante dos depoimentos
apresentados é bem possível que lampião não tenha
nascido cego, mas teve problemas com seu olho direito: Traumático,
infeccioso ou até carencial (falta de vitamina A) na infância
ou adolescência que mais tarde; precisamente em 21 de agosto de 1925,
próximo à baixa do Juá, Pernambuco foram agravados pelo
espinho certeiro que lhe atingiu o olho já doente. “(...) O olho
cego do Capitão Virgulino Ferreira não o impediu de torna-se
uma figura polêmica, escrevendo com sangue e coragem a sua saga na memória
histórica do Nordeste brasileiro, e de maneira muito singular no contexto
sociológico do banditismo mundial.” . Sofreu ainda duas lesões
leves: um ferimento a abala em 1926, em região escapular e outro no
quadril em 1930, no município de Itabaiana - SE. Nas margens sergipanas
do São Francisco; Angico-SE, 28 de julho de 1938 Lampião recebeu
um tiro na região do tórax, outro no baixo ventre, e um terceiro
a queima-roupa na cabeça . O projétil de arma
de fogo que atingiu o crânio fraturou o mandibular o frontal, o temporal
e parietal direitos, levando-lhe a morte .
Os cangaceiros foram abatidos como bois. A matança dos onze bandidos mostrava como era primitiva a vingança das autoridades contra as atrocidades cometidas pelos cangaceiros. As cabeças decepadas e insepultas passariam por um dos “espetáculos” mais tenebrosos vivenciado pela população brasileira.
Conclusão
A peculiaridade
social e econômica do sertão nordestino possibilitou uma sociedade
bastante criativa, onde se gerou uma cultura popular de muita riqueza temática
e histórica.
Sua medicina singular é naturalmente fruto de uma religiosidade extrema;
superstições, folclore e conhecimento empírico que conjugados
formam uma fascinante mistura. Os exemplos citados demonstram que os sertanejos
na ausência de socorro médico, usavam os elementos que estavam
ao seu dispor. Na enfermaria improvisada das caatingas, colhiam seus remédios,
tratavam seus doentes e quando a morte não podia ser evitada, restava-lhes
enterrar os seus companheiros, embalados por rezas, cantigas e cachaça.
É fato o assombramento e despojamento que a caatinga nordestina provoca-nos
que nela habitam. Qualquer julgamento dos cangaceiros necessita de uma interpretação
do seu universo singular e extraordinário; dos seus costumes, código
de honra, sem desprezar as influências do meio hostil que endurece o
homem. Embora a vida errante do cangaço muitas vezes era a única
opção de subsistência para o sertanejo, cairíamos
no reducionismo se afirmássemos que as condições sociais
foram às únicas responsáveis por atos muitas vezes cruéis
dos bandoleiros. A chacina de Canudos, assim como a dos cangaceiros, reflete
uma mancha na nossa história, uma página sem brilho da qual
não podemos nos orgulhar.
Fonte: Isnaia Firminia de Souza Almeida

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