Mapa do Site
Vidas mudadas pelo prazer da leitura

Elas nascem das mais diversas maneiras e são implantadas nos mais variados lugares. Nada disso importa. O que vale mesmo é a intenção de incentivar o hábito da leitura ao criar as bibliotecas comunitárias. Um cômodo da casa reservado aos livros, uma parte do quintal destinada às estantes, um amigo que cedeu um espaço. Borracharia, feira de pesca, barbearia, ponto de ônibus, casa abandonada... Idéias de lugares é que não faltam para expandi-las, independentemente do poder econômico ou da instrução do criador.
A dona de casa Vanilda de Jesus Pereira, 44 anos, conta que nunca pensou em montar uma biblioteca. A idéia era ensinar o dever de casa às crianças de uma creche, onde ela trabalhava, há 19 anos. Por não ter formação, ela comprou alguns livros didáticos e um dicionário. Foi depois de um acidente vascular cerebral, seguido da perda do emprego, que ela começou a trabalhar com reciclagem de papel, quando deparou-se com uma enciclopédia no lixo. «Levei para casa e as pessoas me chamavam de biblioteca».
Ela chegou a fazer um curso na prefeitura para saber definir o público e organizar as publicações. «Por amor aos livros, saí do meu quarto para transformá-lo em biblioteca e fui dormir na cozinha com seis filhos». Nessa época, ela morava no Bairro São Francisco, na Pampulha, e foi desapropriada em função das obras de duplicação da Avenida Antônio Carlos. Com o dinheiro da indenização, comprou um terreno no Paquetá, também na Pampulha, onde reservou a sala de visitas para Camões, Machado de Assis, Eça de Queirós, Nelson Rodrigues, Alan Kardec, entre outros escritores. Também alugou um espaço no Céu Azul, onde uma professora voluntária alfabetiza adultos. «Hoje tenho mais de 20 mil livros, a maioria é doado. Meu interesse é pela melhoria da vida das pessoas que vêm aqui e procuram um livro para concurso, supletivo ou mesmo para distrair».
Foi na biblioteca comunitária do Céu Azul que a dona de casa Maria José Pereira dos Santos, a «Josefa», 55 anos, aprendeu a juntar as letras e a experimentar a felicidade de superar os próprios limites. «Eu ficava com medo de não conseguir, achava que não levava jeito. Já estou quase lendo meu nome sozinha», comemora «Josefa», depois de seis meses de aula. O orgulho é tamanho que, em todo lugar que ela vai, faz questão de levar os cadernos dentro da bolsa para exibi-los aos amigos. «Olho os livros na prateleira da biblioteca e não vejo a hora de poder pegar um e ler todo».
No Brasil, o hábito de ler nunca foi um bem precioso. A média de leitura do brasileiro é de 2,8 livros por ano, enquanto nos países escandinavos e na França são oito a nove publicações anuais. «Quando a própria comunidade percebe que a leitura é capaz de qualificar a cidadania que cada um pode exercer, essa condição é um privilégio», ressalta a presidente da Fundação Municipal de Cultura, Maria Antonieta Antunes Cunha.
A fundação apóia a criação das bibliotecas comunitárias. «Como elas nascem da paixão pelo livro, muitas vezes não há condições técnicas de operar. O acesso é feito por meio de doações, que têm seu valor, mas, muitas vezes, não cria o melhor acervo. A Diretoria de Ensino e Informação cria parcerias no sentido de garantir esse suporte».
As dificuldades mais comuns são espaços inadequados, necessidade de reposição, orientação sobre títulos e falta de voluntários para ajudar a manter esses ambientes. «As bibliotecas comunitárias são um bem que cada comunidade vê como seu. Cria-se um pertencionismo, uma apropriação, mais do que quando há um equipamento criado por alguma instituição», destaca Antonieta Cunha.

Livros que vêm da lixeira

«A Evolução Cultural de um Homem». A sonoridade do título do livro de Gordon Childe chamou a atenção do gari Wagner Aguinaldo Cassimiro, 39 anos, que o achou com outros dois dentro de um saco de lixo. As publicações foram levadas para o antigo refeitório junto com algumas revistas. A sesta era aproveitada folheando páginas e desbravando o mundo dos livros. Foi então que Wagner e o amigo também gari José Caetano dos Santos, 49 anos, resolveram montar o Cantinho da Leitura, na Gerência de Limpeza Urbana Oeste, em Belo Horizonte.
«Mobilizamos os outros garis para encaminhar os livros pra gente», conta Caetano. Uma funcionária os ajudou a fazer a triagem das publicações, já que havia muitas impróprias, e a catalogar. Hoje são 2.700 livros, a maioria doados. A média de freqüentadores é 50 por mês. «Quem tem mais tempo, lê mais. Como trabalho muito na rua, acabo preferindo as revistas e jornais. Até hoje não li um livro inteiro», confessa Wagner. Também Caetano não chegou a ler inteiramente as publicações que ele mais gosta - «Contagem de um Tempo» e «Pelas Trilhas da Vida».
Já o aprendiz de motorista José Vieira Mendes Filho, 51 anos, aproveita os momentos de folga para visitar o Cantinho da Leitura. «Gosto de ler de tudo para limpar a mente, para clarear e não ficar com pensamento esquisito». Agatha Cristie e Sidney Sheldon estão na lista de seus autores preferidos. «Começo a ler duas, três páginas. Se me interessa, continuo. Mas se não gostar, pego outro. Vou mais pelo título. Acho muito bom ter esses livros aqui. A pessoa nunca perde por ler. A gente passa um bombril nas coisas ruins e distrai com a leitura». A idéia deu tão certo que a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) criou 16 pontos de leitura nas demais regionais.

’Borrachalioteca’será descentralizada

A «ficha ainda não caiu» para o borracheiro e estudante de Letras Marco Túlio Damascena, 29 anos. Sua iniciativa de criar uma biblioteca em uma borracharia, mais conhecida como «Borrachalioteca», no Bairro Caieira, próximo ao centro histórico de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), foi a grande vencedora do Prêmio Vivaleitura, entregue na semana passada, no Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília (DF).
Marco Túlio faturou R$ 25 mil pelo 1º lugar. Ele concorreu com mais de dois mil projetos de todo país. Na fase final, disputou com mais quatro projetos de bibliotecas comunitárias, públicas e privadas. Outro vencedor foi o Leitura para Todos, de Belo Horizonte, criado em 2004, para incentivar a leitura de textos da literatura brasileira nos ônibus do transporte coletivo. O Vivaleitura foi criado pelos ministérios da Educação, Cultura e Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura.
«Sinceramente não esperava ganhar esse prêmio. Agora quero expandir a idéia para outros pontos da cidade, quero descentralizar a ’Borrachalioteca’ para que as pessoas possam ter sempre um livro em mãos», contou. No local, clientes e moradores têm acesso de graça a centenas de livros, jornais e revistas, desde 2002. Hoje já são mais de sete mil exemplares e a média de empréstimo, segundo ele, é de 220 publicações por mês. Os freqüentadores recentes mal imaginam que tudo começou com cerca de dez livros, jornais e revistas.
Pelo jeito, a biblioteca promete crescer ainda mais, já que ele recebeu uma nova doação, ainda encaixotada, e aguarda a chegada de milhares de exemplares da DPaschoal - empresa de peças automotivas - que recebeu menção honrosa também pelo incentivo à leitura. «Pedi ao representante da empresa uns 300 livros e ele me disse que será muito mais que isso, já que a doação deles é de 30 mil por ano».
O contato mais próximo com os livros levou Marco Túlio a estudar para o vestibular. Aprovado em Letras na Faculdade de Sabará, ele já cursa o sétimo período. A «Borrachalioteca» promove Tardes Culturais, toda quarta-feira, às 15 horas, com a participação da contadora de histórias Águida Alves e cerca de 30 alunos de escolas da cidade.

Sempre um papo


O projeto Biblioteca Sempre um Papo é um dos grandes incentivadores dos espaços comunitários. O contato da ONG Sempre um Papo com grandes editoras possibilita a doação de livros novos, sempre feita com a presença de um escritor renomado. «Temos que fazer um barulho para divulgar essa atividade silenciosa que é a leitura», afirma o coordenador do projeto Biblioteca Sempre um Papo, Rafael Araújo. Em 2006, foram sete mil livros doados. Até outubro deste ano, já foram 7,5 mil, sendo que o projeto chegou a Itabira e Nova Lima.
Também o cidadão comum contribui com as doações, durante os eventos do projeto Sempre um Papo ou ligando para a ONG, cujos voluntários buscam os exemplares. Rafael Araújo observa que livros sem capa, faltando páginas e até mesmo o final da história são inutilizados.

Dificuldades

Muitas bibliotecas sofrem com a dificuldade de manutenção, devido à falta de voluntários até mesmo para anotar empréstimos e devoluções. Uma delas é a do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comurba). O presidente da associação, Itamar de Paula Santos, afirma que a biblioteca está toda montada, mas precisa de um voluntário para o atendimento, das 8 às 20 horas. «Estamos tocando do jeito que dá, mas não temos apoio do município para conseguir essa pessoa», lamenta.

Ambição em formar leitores

O sonho do pescador Leonardo da Piedade Diniz Filho, 42 anos, é conseguir um veículo do tipo van ou Kombi. As poltronas seriam eliminadas para dar lugar às prateleiras recheadas de todo tipo de livro. «Minha idéia é rodar por todos os cantos de Pirapora, estacionar o carro, abrir um toldo e permitir as pessoas escolherem os livros que elas quisessem ler». Leo do Peixe, como é mais conhecido no Norte de Minas, também sonha com o dia em que terá um espaço 24 horas dedicados aos livros, «para que ninguém tenha desculpas de não ter tempo para ler».
No dia 5 de fevereiro do ano passado, Leo montou o Clube da Leitura, um espaço reservado aos livros, gibis e revistas, na tradicional Feira do Peixe, no Bairro Santos Dumont, que acontece nas manhãs de domingo em Pirapora, onde se comercializam pescados. Ele teve a idéia de montar a «barraca cultural» para que seus filhos Gabriel, 8, e Izabel, 5 anos, e os dos outros pescadores tivessem algo com o que se divertir, enquanto ele e a mulher Analina ficavam na labuta. Leo conta que passa a semana toda fora, às voltas com a pescaria nos rios.
«Fiquei ambicioso no sentido de formar leitores. Levava livros de bolso, faroeste, revistas, romance como Júlia, Sabrina, Bianca. A maioria dos livros é doação», conta. A primeira livraria da cidade foi inaugurada em dezembro passado e a maioria das bibliotecas está nas escolas, cujo acesso é restrito e os horários pouco abrangentes, como ocorre com a biblioteca municipal.
«Como o hábito da leitura é pequeno, acabei recebendo muitos livros didáticos. Tenho um caminhão e meio desse tipo de publicação», conta. Noventa por cento dos mais de 800 cadastros de leitores é formado por crianças. Apesar disso são poucos os exemplares infantis. «As pessoas têm ciúmes dos livros, têm apego a eles, mas acho que é preciso romper com essa barreira. Livro tem que circular, tem que ser lido e não ficar guardado», defende Leo do Peixe.
Toda biblioteca é mantida na varanda de sua casa, onde o entra-e-sai de leitores é constante. Uma das lembranças que ainda o emociona é a alegria de uma senhora de 53 anos, recém-alfabetizada, ao saber que poderia levar qualquer exemplar para casa, sem necessidade de pagar por isso, já que não teria condições. Ele também se orgulha em falar que há crianças em seu cadastro que lêem cinco a oito livros por semana.
Toda semana, na Feira do Peixe, os visitantes contam com aproximadamente 1.200 livros, levados para as barracas em uma carroça, já que o meio de transporte de Leo é uma bicicleta. O pescador também faz sua parte e procura ler, quando possível, dois a três livros por semana.
Quem puder contribuir com doações deve encaminhá-las para Avenida Benjamin Constant, 1.135, Santos Dumont, em Pirapora (MG)

.

Doação permitiu abrir espaço para comunidade

A pequena casa branca de portas e janelas azuis é um dos espaços mais concorridos dos moradores do Morro São Sebastião, em Ouro Preto. Desde 2002, a construção ligada à Irmandade Nossa Senhora da Saúde abriga uma biblioteca com seis mil livros. A idéia de criar o espaço partiu do professor da Universidade de Ouro Preto (Ufop) e engenheiro de minas Carlos Alberto Pereira, 51 anos, como um projeto de extensão.
A doação de um total de R$ 7,5 mil pela empresa Novelis, indústria de alumínio da cidade histórica, possibilitou incrementar o espaço, que hoje conta com seis mil livros. Um dos destaques é toda a série Harry Potter. «A população se apropriou da biblioteca. A comunidade é que cuida, paga as contas de luz, faz doação em dinheiro para ajudar na manutenção». A freqüência é de 130 pessoas por semana. «Além de livros e gibis, há jogos, como War. Não quis colocar computadores porque a durabilidade é menor, se comparada ao livro. Nas universidades, há uma grande número de livros furtados. Aqui na biblioteca nunca sumiu um livro. E olha que não temos tranca», gaba-se Pereira.
A idéia deu tão certo que, em 2005, foi a vez da comunidade do Bairro Saramenha de Cima ganhar um espaço, onde há mil livros. Temas, títulos e autores são pedidos pelos próprios freqüentadores. Um dos mais lidos é Paulo Coelho. Mas também há, por exemplo, «O Livreiro de Cabul», de Khaled Hosseini, que figura entre os mais vendidos de não-ficção.
As aquisições são feitas em sebos de Belo Horizonte e em sites de compras. «Procuramos livros que contam um pouco da história do local. Antigamente, havia uma cerâmica saramenha, que hoje só é fabricada em Ouro Branco. A população tem interesse em saber mais sobre isso. Procuramos atender essa demandas», afirma Pereira, lembrando que o projeto das bibliotecas tem apoio da Ufop, prefeitura, Novelis e da comunidade.

Leitura que nasceu do caos

Quem vê a aposentada Palmira Feliciano da Silva, 42 anos, pedalando sua bicicleta pelas ruas de Itaúna, no Centro-Oeste de Minas, com um sorriso no rosto e carregando livros em sua mochila não imagina o calvário que ela passou. Mas foi a depressão e a síndrome do pânico, que ela experimentou há 14 anos, que a permitiram ajudar as pessoas e criar o que é hoje seu maior prazer: uma biblioteca ambulante.
A metalúrgica conta que chegou a ser internada por duas vezes em uma clínica psiquiátrica, além de fazer tratamento em hospitais-dia. Nessas instituições, ela foi apresentada a livros de auto-ajuda e se interessou em publicações sobre suas enfermidades. «A partir de uma busca, fui fazendo minhas próprias pesquisas e tive acesso a alguns livros, inclusive os do psiquiatra Augusto Couri, e a apostilas. Hoje estou basicamente 100% boa. Por causa da minha melhora, muitas pessoas me procuraram para saber sobre todo o processo do meu tratamento e eu acabava indicando alguns livros», recorda.
Ela conta que chegou a reciclar garrafas pet e papelão para comprar livros, com o dinheiro arrecadado. «Foi quando começaram a me chamar de biblioteca ambulante». Com um ano e meio de funcionamento e um acervo de aproximadamente três mil livros de auto-ajuda, infanto-juvenil, literatura, didático e romance, distribuídos em duas estantes em sua sala e os de menor interesse guardados em outra no quarto, Palmira recebe os leitores, sempre com um bate-papo agradável, acompanhado de um suco ou chá, no Bairro Murilo Gonçalves. «Acho uma grande satisfação pode receber as pessoas. Elas sempre contam um pouco sobre a vida delas. Tenho 394 leitores cadastrados que freqüentam sempre a biblioteca».
Quem, por algum motivo, não pode ir ao local não fica sem ler. Palmira sempre arruma um jeitinho de levar as publicações no trabalho, na casa ou em algum ponto marcado, já que sua casa-biblioteca fica a cerca de 15 minutos do Centro. O que ela quer é fazer com que as pessoas despertem para a leitura. Palmira revela que hoje não tem o mesmo tempo disponível de antes, quando lia dois a três livros por semana. Hoje ela consegue manter essa média por mês.

Fonte: Jornal Hoje em Dia Edição dia 04/11/2007

Reporter: Luciana Neves

Estas, são pessoas que fazem acontecer.

Para elas, a "vida não passa ao largo"!

E o nosso companheiro de tantas lutas continua aí, no meio das pessoas que se preocupam com o futuro das nossas crianças e de nosso país.

Um abraço Leo do Peixe.

velhochico.net

Principal....
Copyright © 2006 - 2008 - www.velhochico.net - Contato: (38) 3741-1315 - 8836-1315 - Todos os direitos reservados. - Melhor visualizado em 1024 x 768