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(Obs.> Esta matéria foi publicada em 2001, fazendo parte do corpus documental e discursivo, levantado na época de defesa da tese de doutorado do autor)
Roberto Lima
1 Agradeço aos amigos do São Francisco, que me permitem compartilhar pedaços de vidas, e me guiaram por este rio: David Nogueira, Orleans, Nestor, Bertinho, Camerindo, Sandoval, Zé de Júlio, Emília Nogueira. As imprecisões são, claro, de minha responsabilidade.
O último apito do último vapor
Existe um último barco a vapor aportado em Pirapora. O Benjamin Guimarães, espécie de fóssil vivo que testemunha um passado onde 27 vapores viajavam pelo rio e as companhias de navegação totalizavam 1300 funcionários. Este barco não navega desde meados da década de 1990, e tem gerado nos últimos anos uma disputa política que ainda vai destruí-lo, como é comum aos monumentos de memória brasileiros.8
Transcrevo aqui alguns trechos de entrevistas da caderneta de campo para introduzir o assunto:
Essa história da caldeira do Benjamin estar condenada é inventada. Foi na época que tivemos um prefeito turco [em Pirapora-MG], o Wallid [que foi cassado antes de terminar seu mandato], que queria passar [a propriedade d]o vapor para a prefeitura e combinou com o presidente da companhia [Franave na época, que também era turco, para encostar o navio, que o barco encostado era mais fácil para a prefeitura pegar (N. – bordo do empurrador Santa Glória).
Por acaso, viajei com o último maquinista a colocar fogo na caldeira do vapor: Este ano foram fazer umas filmagens [em Pirapora] e pediram para pôr fogo na caldeira [do Benjamin Guimarães], eu fui lá e acendi. A caldeira é velha mas ainda dá confiança. Fui lá, deixei dar pressão, pus as máquinas para rodar, só não tirei [o barco] do porto porque há a mentira da caldeira estar condenada. Toquei o apito... (D. – bordo do empurrador Santa Glória)
Aquele apito rendeu a ele uma “bronca do presidente da companhia”: toda a cidade chorou e dois velhos marujos tiveram de ser hospitalizados com dores no peito.
Tarsila, a vizinha do L., chorava convulsivamente na porta da casa e escondia o rosto nas mãos, lembrando de seu falecido Matias, taifeiro.
Quando D. chegou em casa, seus septagenários pais choravam sentados na sala, abraçados: “filho, que vapor é esse que chegou no porto?”. A emoção era infinitamente mais forte que a razão: todos os moradores de Pirapora com mais de 50 anos sabem diferenciar o apito de cada um dos quase trinta vapores que existiram no rio, mesmo considerando que praticamente todos estes foram desfeitos e transformados em sucata no início da década de 1970, quando a Franave era comandada pelo vice-almirante Sartie.10
O apito metálico e lúgubre do navio rasgou o presente trazendo em seu sopro a nostalgia da juventude para a memória de toda uma cidade. Uma paisagem há muito destruída passou pelos olhos dos moradores, mesmo para aqueles que não tinham no rio um dos centros de suas identidades, mas que acorriam todos ao porto quando soprava um apito que significava o retorno de parentes, ou a chegada de pessoas de fora, correio, notícias e mercadorias.
( A última viagem longa do barco, nos 1300 km que separam Pirapora e Juazeiro, se deu em 1986, mas o barco continuou fazendo pequenas viagens por mais dez anos.
Embora eu não conheça nada de “resistência de materiais”,
visitei o velho vapor e o que vi foi uma peça sólida. O fato
de o motor funcionar numa rotação extremamente baixa, cerca
de 25 rpm (em média velocidade, um motor de carro trabalha a 3000 rpm),
faz com que praticamente não exista desgaste por vibração.
De acordo com o maquinista, esta caldeira tem vários dispositivos de
segurança, entre eles uma placa de liga metálica com baixo ponto
de fusão que faz a separação entre o forno e a caldeira
de pressão que lhe fica acima. No caso de um superaquecimento,
esta placa se derrete e a água da caldeira cai sobre o forno apagando-o.
Ele ainda disse que numa das últimas vezes que o vapor rodou, deixou
dar pressão bem acima do normal para verificar se havia algum vazamento.
“A caldeira é velha mas ainda dá confiança”
(D. – bordo do empurrador Santa Glória). )
Conforme será retomado adiante, foi-me vedado o acesso aos arquivos da companhia, portanto algumas datas e contextos não podem ser melhor especificados do que está aqui apresentado e reconstruído a partir de falas de marujos.
Para aqueles que trabalharam na navegação e suas famílias, a dor é ainda mais forte, pois há a consciência das mudanças no próprio rio, algo que foi magistralmente descrito por Márquez em O Amor nos Tempos do Cólera:
—
É o pouco que nos vai restando do rio – disse o comandante.
Florentino Ariza, com efeito, estava surpreendido com o que havia de mudado,
e mais ainda estaria no dia seguinte, quando a navegação ficou
mais difícil, e percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores
do mundo, não passava de uma ilusão da memória. O capitão
Samaritano explicou como o desmatamento irracional tinha acabado com o rio
em cinqüenta anos: as caldeiras dos
navios tinham devorado a selva emaranhada de árvores colossais que
Florentino Ariza sentia como uma opressão na primeira viagem. Fermina
Daza não veria os bichos de seus sonhos: os caçadores de peles
dos curtumes de Nova Orleans haviam exterminado os jacarés que fingiam
de mortos com as fauces abertas durante horas e horas nos barrancos da margem
para surpreender as borboletas, os louros com suas algaravias e os micos com
seus gritos de doidos tinham ido morrendo à medida que acabavam as
frondes, os peixes-boi de grandes tetas de mãe que amamentavam as crias
e choravam com vozes de mulher desolada nas pontas de areia eram uma espécie
extinta pelas balas blindadas dos caçadores de prazer (Márquez
1985: 408-409).
Em 02/02/2002, recebi a notícia de que ele (o Benjamim Guimarães) estava começando a ser restaurado, mas os marujos continuavam céticos sobre a conclusão do trabalho. Finalmente, em abril de 2003, soube que só faltava à reforma “arrumar a caldeira”. Contudo havia ainda a possibilidade de o navio continuar proibido de navegar por “inadequação às normas vigentes da marinha”!
Enfim, nas palavras de vários fluviários, o poder que tem este vapor como concreção de tempo é que irá destruí-lo: “É ele que elege os prefeitos: em Pirapora, a promessa de restaurar o vapor é igual aos discursos [no Congresso Nacional, em Brasília-DF] de quem diz que vai acabar com a seca” (N. – bordo do empurrador Santa Glória). Essa história fantástica foi contada a bordo de um dos empurradores da companhia,11 com a seguinte recomendação: “Você não vai publicar isso? Segredo de água não chega em terra”.
Após
muito pensar, resolvi-me por escrever o trecho ocultando os nomes dos entrevistados,
possibilidade à qual, num primeiro momento, não se opuseram
(e posteriormente apoiaram), pois infelizmente a profissão de antropólogo
sempre tem esta tensa relação entre o segredo e a tagarelice.
De certa maneira, estou agindo como se eles me tivessem dito que “segredo
de água não chega intacto em terra”, terra esta que é
englobada pelos olhos do patrão.
A separação entre os mundos da água e da terra é fundamental para entender esta história, assim como a separação entre tempo presente e outros tempos, o tempo “além”, havendo, no modo de ver a vida destes agentes, várias temporalidades que se organizam espacialmente inclusive, como uma temporalidade terrestre e uma temporalidade aquática.
Os marujos têm uma profusão de lealdades que se intercalam com
receios – aos barcos, uns aos outros, ao rio, à história
de suas famílias, à companhia – que se concretizam numa
fala quase subliminar: um ruído de onde se reconhece apenas palavras
soltas que vêm do leito do rio, um murmúrio cujo som mais inteligível
é o apito.
Como a gente é concursado, eles não podem mexer com a gente,
mas se um de nós tem um filho que presta serviço, como eu, eles
vão atrás do filho e cancelam o contrato (D. – bordo do
empurrador Santa Glória).
Na verdade, um enorme comboio de quase 200 m, carregado com 2000 toneladas de soja, no qual viajei durante nove dias, entre as cidades de Juazeiro-BA e Ibotirama-BA.
No São Francisco, de qualquer forma, para burlar a vigilância panóptica, a mensagem deve sempre ser cifrada ou, se em forma de denúncia, anônima:
Numa
dessas viagens o João Guedes [um antigo comandante] comprou um papagaio,
e o louro não falava. Aí, o louro ficava lá atrás
e eu, toda vez que passava perto, olhava para ele e dizia: “João
Guedes rouba!”, “Filho da puta!”.
E o louro só mexia a cabeça e olhava de lado [enquanto contava,
L. movia a cabeça e me olhava, imitando o papagaio].
Quando o João Guedes chegou em casa e levou o louro, a primeira coisa que o louro disse foi: “João Guedes rouba!”, “Filho da puta!”. O João Guedes ficava resmungando: “Isso é coisa do safado do L.”, mas quem sabia? (L. – bordo do empurrador Santa Glória)
Esta forma de comunicação ou denúncia que chega em terra através do papagaio ensinado no rio transita entre dois termos caros a Benjamin: “O enigma é um fragmento que junto a outro fragmento que lhe convém forma um todo. O mistério, ao contrário, sempre foi evocado mediante a imagem do véu, esse velho cúmplice do longínquo” (Benjamin 1972, citado em Vázquez 1996: 23).
É perigoso, para quem fala, expor a verdade transparente das relações de trabalho. Elas devem permanecer ocultas nos camarotes, mas, ao mesmo tempo, o sentimento de sua profunda iniqüidade impele a que partes sejam reveladas alegoricamente, nos fragmentos.
Existe, na região do São Francisco, uma “luta pela memória”, não no sentido de preservação do maior número possível de fatos que possam ser reinterpretados, mas de apagar sistematicamente tudo aquilo que não coincide com a visão hegemônica.
É neste sentido que pode ser pensada a franca dificuldade em conseguir informações sobre o passado da companhia de navegação, por exemplo: dos velhos vapores só consegui uma listagem feita por um dos diretores atuais, José Guedes, na qual só havia os nomes das embarcações; nenhuma informação sobre tripulação, quanto tempo navegou, se levava passageiros ou apenas carga, etc. A questão que deve ser levantada é se, sendo a hegemonia um trabalho, o apagamento seletivo por vários setores que se vão sucedendo acaba por apagar qualquer rastro da história?
Novamente esta tensão era presente a bordo dos barcos:
É
que o José Guedes não tem compromisso com a navegação,
aqueles que estão no escritório não se preocupam com
isso daqui. Quando você for lá de novo nós vamos juntos,
que lá atrás tem um quartinho em que essas coisas
ficam jogadas. Olhe, para você ter idéia, eu achei registro do
meu avô embarcado (L. – bordo do empurrador Santa Glória).
Aqui dá para perceber a questão do compromisso entre a família e a navegação. Também o pai e o avô de L. eram marujos: “então eu me considero realizado” (L. – bordo do empurrador Santa Glória); e seu tecnônimo que aqui está ocultado vem do apelido de seu avô que foi herdado pelo pai, e depois por ele. Atente-se que, para estes agentes, a “navegação” são os que trabalham nos barcos. Para eles, é uma deturpação do sistema o fato de que, à época da pesquisa, apenas 21 dos 100 funcionários da companhia (ou seja, cerca de um quinto) fossem fluviários, sendo que, destes, alguns se aposentariam brevemente e não havia perspectiva de novos concursos:
Aqueles
caras que estão lá nos escritórios não têm
compromisso nenhum com a navegação. Tem muitos deles que dizem
“eu quero que isso aqui acabe”. O penúltimo diretor [Lúcio
Flavio Coelho], ele era filho de comandante, então
ele dizia [quando viajava eventualmente a bordo]: “tudo que eu tenho
eu devo a isso aqui”. Então ele tinha esse compromisso. Esses
que estão agora lá, não (N. – bordo do empurrador
Santa Glória).
D. foi o último marujo a entrar na companhia hereditariamente: “na época tinha essa lei, o emprego em estatal era vitalício: quando um [funcionário] aposentava, ele podia indicar um filho, e foi isso que meu pai fez. Aí eu entrei, acho que era na época do Figueiredo, e um tempo depois mudou a lei [a referência é à promulgação da Constituição Federal de 1988, que instituiu a obrigatoriedade de concursos públicos, quatro anos depois da sua admissão]” (D.). A bordo, da tripulação total de sete pessoas, além dele, o pai de V. tinha sido comandante, o tio de N. e o pai de D. e de O. tinham trabalhado na navegação.
Por outro lado, o mundo da água é o sertão do sertão. Ou seja, se o sertão são os espaços que, dentro do imaginário do estado nacional brasileiro, são reportados vazios pela sua resistência à domesticação/aceitação do aparelho de estado, o rio, como espaço de movimentação de gente, é o espaço mais refratário, ainda hoje, à inclusão na geopolítica estatal.
Bons exemplos são os “remeiros” estudados por Zanoni Neves (1998).20 As barcas eram, muitas vezes, pequenos bandos de jagunços flutuantes:
Os “remeiros”, também conhecidos como “moços de barca”, trabalhavam empurrando as barcas em viagens rio acima ou abaixo, numa ocupação digna das galés.
Tinha um barqueiro [dono de barca] abaixo de Morpará que, você chegava para ele [e dizia], “coronel Messias Ramos, eu queria trabalhar para o senhor”, ele dizia: “fica aí meu filho” e pegava o rifle [que sempre ficava do seu lado na cadeira] e manobrava na sua direção. Se você fizesse alguma menção [mexesse-se] ele dizia: “vai embora meu filho, você não me presta” (Mestre Ciço – Remanso).
A
presença destas relações só se verá diminuída
no rio na década de 1950, pela introdução das barcas
sergipanas com duas velas, do motor a combustão, e da fiscalização
das leis trabalhistas no rio pela marinha. Contudo, a idéia
de o vapor como um “estado flutuante” permaneceu até o
fim da navegação de passageiros, embora parte de sua atuação
pareça devida à leitura local da legislação da
marinha sobre barcos (o comandante decide por tudo dentro
do barco, podendo inclusive realizar casamentos e emitir certidões
de óbito).
Esse
poder total do comandante é presente nas narrativas das inúmeras
maneiras como estes roubavam a companhia (fora o impressionante número
de mulheres que engravidavam):
Há uma aparente capitalização do consumo da oferta de
sexo correndo junto à diferenciação hierárquica
dentro do vapor. Um comandante que registrou todos os filhos que tinha nas
barrancas afora contabilizou 85.
No
tempo dos vapores, como toda a contabilidade era feita pelo comandante, ele
omitia direto [sempre] o que entrava e saía do barco. Esses comandantes
antigos, a cada viagem, um comprava uma casa (N. – bordo do empurrador
Santa Glória ).
Eles
roubavam no número de passageiros. Como? Você embarcava, pagava
a passagem mas o comandante não lançava teu nome no rol de passageiros.
Isso continuou com as [barcas] barranqueiras [que substituíram os vapores].22
De 100 passageiros, vamos dizer, 27-30 o comandante não contava (N.
– bordo do empurrador Santa Glória).
Roubavam
da própria tripulação: tinha uma tabela de gastos para
descarga, para pagar estivador, e tinha um dinheiro reservado para isso: saco
de feijão, R$ 0,30; fardo de algodão, R$ 0,50... Aí,
em vez de pagar para estivador
do porto, ele pagava R$ 0,10 para os marujos fazerem, e embolsava o resto
(D. – bordo do empurrador Santa Glória).
Não havia fiscalização, então, tinha viagem que
eles não registravam nada de frete (N. – bordo do empurrador
Santa Glória).
O rancho [suprimento de comida] que sobrava, [era tanto que] ia de carroça para as casas do comandante, do taifeiro e do piloto (L. – bordo do empurra- dor Santa Glória).
Os taifeiros, em particular, eram famosos por serem “lisos” ou “mão rápida” (ladrões):
Antes
tinha taifeiro, e taifeiro roubava pacas. Teve uma vez, o barco já
ia sair e o comandante foi dar uma conferida na dispensa. Acontece que a mulher
dele tinha feito uns pães de queijo para ele e os pães de queijo
sumiram. Ele saiu
perguntando para um e outro: “fulano, você viu na dispensa um
saquinho de pães de queijo assim, assado...”. E todo mundo respondia:
“vi não senhor”.
O Barco saiu e ele ficou com aquilo na cabeça. Aí tinha uma
roda com um bocado de gente, da tripulação, onversando, ele
chegou e disse [bem sério]:
“Rapaz, estou preocupado. Minha mulher mandou uns pães de queijo,
mas uma parte estava com veneno, que era para matar os ratos do porão.
Agora os pães de queijo sumiram e se alguém comer vai morrer”.
Daqui a pouco ele
encontrou o taifeiro chorando encostado na amurada: “ai comandante volta
o barco que meus meninos vão morrer, eu não sabia que os pães
de queijo tinham veneno, agora meus meninos vão morrer tudo comandante,
eu levei pros meus
meninos e eles vão morrer comandante, volta o barco comandante...”.
O comandante olhou aquilo: “mas rapaz, eu não perguntei? Por
que você não falou?
Pode ficar tranqüilo, não tem veneno não eu só queria
saber quem foi [que roubou]” (N. – bordo do empurrador Santa Glória).
Obviamente
“segredos de água”, estas falas elucidaram muito das entrevistas
realizadas um ano antes em Pirapora. Quando tentei entrevistar um taifeiro
aposentado, Antônio Porfírio, dono de uma loja de souvenires,
e Antônio Borges,
contramestre também aposentado. Ambos recusaram-se a falar e remetiam-me
aos comandantes aposentados. Um destes, Aniceto (que quando foi entrevistado
por mim parecia um bom vovô com mal de Parkinson), revelou-se, a partir
dos relatos unânimes dos fluviários recolhidos no rio, um emérito
calhorda.
Teve uma vez que alguém me disse que o comandante ia pedir meu desembarque e eu fui lá perguntar: “Comandante, estão dizendo por aí que o senhor vai pedir meu desembarque...” / “Quem te disse isso? Você é marujo meu e enquanto você estiver aqui, nem mosca pousa em cima!”. Voltei todo cheio de moral: “poxa, o comandante falou que nem mosca ele deixa chegar perto de mim”. Pois não deu outra: o barco chegou na capitania ele foi lá e disse: “desembarca o L., o J., o T. B.: é tudo mau elemento” (L. – bordo do empurra-dor Santa Glória).
Olhe Roberto, teve vez de vir casal, casal da roça, visitar o Benjamin [Guimarães], e ele falar pro cabra ficar mexendo no timão – “isso meu filho faz assim, faz assim que você aprende” – e levar a mulher do sujeito para o camarote. [...] Esse cara está pagando [com o mal de Parkinson] e ainda tem muito o que pagar (L. – bordo do empurrador Santa Glória).
O desembarque é considerado uma punição branca pois, se não consta na caderneta (documento da marinha) como tal, fica registrado na companhia que houve alguma indisposição entre o vapozeiro e o comandante.
A obliteração, portanto, que a companhia faz em terra, ao sumir com os documentos, replica-se nas falas dos fluviários aposentados quando desembarcados e, entre estes, não partia apenas dos comandantes, mas também de seus “mancomunados”, como se pode depreender da diferença que houve entre os depoimentos do contramestre recentemente aposentado Walter Perereca, durante um passeio a bordo, para quem “os comandantes velhos eram terríveis” e exigiam obediência mais que rigorosa à hierarquia, e as conversas com o contramestre Antônio Bastos, aposentado na década de 1970: “esse Perereca deve ter falado muito é besteira”. Para um comandante da ativa:
As primeiras viagens que eu fiz como comandante, o Aniceto e o Leobas tentaram me passar o pulo do gato. Falavam para eu não me misturar, não sair para beber com marujo, não dar liberdade para marujo (N. – bordo do empurrador Santa Glória).
A
primeira viagem que eu fiz foi que eu vi o quanto que dava dinheiro: eu me
lembro que eu cheguei em Juazeiro, era uma ruma de dinheiro que eu não
sabia o que fazer com aquilo. Eu sei que era dinheiro que enchia uma sacola
de plástico. Era na época que tinha o “fundão”
[governo Sarney], aí eu fui no banco, depositei na minha conta para
não ficar andando com aquilo e, quando cheguei em Pirapora, saquei
e fui direto na Companhia: “toma esse dinheiro
aí, você me dá um recibo que amanhã eu trago minha
prestação de contas”. A senhora lá ficou espantada:
“que tanto de dinheiro é esse?”. “É frete”,
respondi. Nesse mesmo dia um comandante desses me pegou pra falar: “você
não podia ter feito isso”. Ninguém fazia. [nesse momento
da conversa, alguém da tripulação interveio: “foi
como se ele tivesse chamado os comandantes de ladrões para a companhia”]
(N. – bordo do empurrador Santa Glória).
Por fim, havia ainda uma utilização dos segredos do conhecimento do rio e das embarcações em proveito próprio, como forma de “proteção de mercado”:
Quando eu entrei, os pilotos velhos, eles se negavam a passar para a gente as informações. Tanto que eles tinham certeza que a navegação ia se acabar quando eles saíssem (N. – bordo do empurrador Santa Glória).
Os mecânicos, eles armavam tendas e trabalhavam escondidos, para ninguém ver o que eles estavam fazendo. Se você ficava olhando, assim, tentando aprender, eles falavam: “vai pegar para mim a chave tal, a ferramenta tal”. Quando você chegava ele dizia: “não tudo bem, já arrumei.” Era só para você não ver (D. – bordo do empurrador Santa Glória).
Isso
é diferente de dizer que há também na experiência
do dia-a-dia o reconhecimento de que uns têm mais aptidão para
certos fazeres. Algo bem visível no tocante à pilotagem, que
implica na sutileza de “ler” o relevo do fundo do
rio nas delicadas alterações da superfície da água,
e que exemplifica como um deles me apresentava a diferença entre dois
companheiros (S. e L.): “ L. quer subir e virar piloto [ele é
contramestre, terceiro na hierarquia a bordo e o piloto
é o segundo] para ganhar um pouco mais e aposentar um pouco melhor.
Eu vou ajudar ele, vou ensinar, mas ele não vai ser um bom piloto.
Ele não tem o jeito. Sabe quem tem o jeito? O S.” (N. –
bordo do empurrador Santa Glória).
A navegação não acabou, ainda. Mas uma série de relações sociais internas aos barcos, sim, algumas diretamente ligadas ao fim da navegação de passageiros, quando taifeiros e camareiros desaparecem. Permanece forte o amor que estes marinheiros têm a seus barcos e o desconforto ao pensar na possibilidade do fim da navegação:
Se isso
acabar, não sei. Nós paramos no tempo. Nosso horizonte é
esse, tem 17 anos que eu viajo. Talvez ir para o [rio] Tietê [seja uma
alternativa]. Tem quatro daqui que foram para lá e estão se
dando bem (N. – bordo do empurra-
dor Santa Glória).
Já me acostumei a este serviço, não sei se daria certo em outro. Tem dia no barco que dá vontade de largar tudo, mas onde que vou encontrar algo assim? (L. – bordo do empurrador Santa Glória)
(Roberto Lima, é hoje professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE pode ser contactado pelo email nadanacuca@click21.com.br )
velhochico.net agradece a colaboração em transcrever uma das histórias e entrevistas feita sobre os vapores datadas de 2001, e retiradas do texto: “Três nós na Memória”.
