Geólogo: Dilermando Alves do Nascimento
Ressuscitado durante várias
décadas, o Projeto de Transposição das Águas do
Rio São Francisco volta às manchetes respaldado pela justiça
com força de um leão feroz e faminto devorando tudo que vai
encontrando pela frente, apesar de ser contestado e condenado por cientistas,
técnicos e pela grande maioria da sociedade brasileira.
O projeto voltou mais robusto e de caixa alta com mais 2,1 bilhões
adicionados ao custo inicial de 4,5 bilhões da obra, totalizando agora
a expressiva verba de 6,6 bilhões. Quem deve estar sorrindo à
toa são os sortudos que irão colocar as mãos em cima
desta bela grana, os empresários da construção civil,
os industriais e por tabelinha os detentores do agro negócio. Estamos
vivendo o momento já tradicional de restituições das
doações feitas para as campanhas políticas passadas e
futuras. E o povão como fica? Vai sobrar mais sede e fome, até
que a morte os separe.
Tenho me posicionado sempre contra a execução deste projeto
convicto de que as soluções para os problemas sócio-econômicos
e da seca do Nordeste do Brasil não serão resolvidos com uma
simples oferta de água. A água por si só, não
constitui o único fator fundamental para o desenvolvimento de uma região,
necessitando de programas e ações complementares. Sem estas,
não haverá aproveitamento racional da água, visto que
durante os períodos de estiagens prolongadas, os municípios
próximos às grandes massas d'água, a exemplo do de Orós
e os situados às próprias margens do Rio São Francisco,
sempre entrarem em estado de emergência, recebendo vultosas verbas públicas
emergenciais que só Deus sabe em que circunstâncias elas são
gastas.
Inúmeros trabalhos técnicos desenvolvidos no Nordeste do Brasil apontam a existência de um volume de água acumulado nesta região mais que o suficiente para promover o desenvolvimento e dar uma qualidade de vida digna ao seu povo.
O péssimo gerenciamento de seus recursos hídricos ao longo de todos estes anos, com resultados ineficazes, não conseguiu promover efetivamente melhorias nas condições de captação e armazenamento de suas águas, nem melhorar a sua distribuição espacial para as regiões mais dispersas do sertão, com os grandes açudes mantendo suas águas armazenadas em estado de inércia. O cerceamento do direito de uso para o homem humilde do campo, o manejo inadequado das reservas de água e a falta de um verdadeiro programa que democratize o acesso a ela, são alguns dos fatores dominantes que não permitiram um crescimento sustentável para a região.
A falta de água, ou melhor, a não permissividade de acesso do homem, tem se constituído um fato real causador da sede e da fome da População do Semi-Árido. Entretanto, a miséria e a pobreza da população do Semi-Árido Nordestino, não deve ser atribuída à escassez da água, como dizem os políticos, mas como o resultado do descaso dos governantes para com as obrigações sociais essenciais como, assistência à saúde pública com uma medicina socializada que elimine os indicies alarmantes de doenças endêmicas e a mortalidade infantil, a implantação de um programa educacional para erradicar o analfabetismo, uma reforma agrária mais abrangente com implantação da agricultura familiar, um programa habitacional que elimine moradias inabitáveis e sem saneamento básico, e a criação de políticas que permitam o crescimento econômico reduzindo o alto nível de desemprego que existe hoje em todo o país.
A infra-estrutura deficiente do Nordeste
deve ser atribuída à falta destes itens essenciais indesejáveis
à vida humana, que vêm sendo mantidos pelo egoísmo dos
nossos governantes, acompanhada de um sadismo sem precedentes. As verbas para
implantação das políticas públicas nos projetos
estruturais, são na maioria das vezes aplicadas indevidamente caracterizando
a malversação do erário público para alimentar
a famosa indústria da seca.
O químico e sociólogo Luís Américo tem participado
em várias ocasiões das discussões dos artigos do site
do Ambientebrasil defendendo a implantação do Projeto de Transposição
das Águas do Rio São Francisco. Até aí tudo bem,
respeito a sua opção em defesa do projeto, porém discordo
do seu simplismo em suas manifestações infundadas e divagantes.
O fato, é que ele trata de forma depreciativa as questões relacionadas
ao meio ambiente, fazendo deboche em cima de um processo complexo e de conseqüências
catastróficas imprevisíveis, como é a captação
de água dos rios, dando prova cabal de que não conhece absolutamente
nada em matéria de recursos hídricos e muito menos de agressão
e impacto ao meio ambiente, um verdadeiro simplício.
Em seus comentários é nítida a sua aversão no
tocante ao trato de questões ambientais que são prioritárias
em qualquer projeto. Então, como pode ele descartar estas questões
fundamentais, em se tratando de um projeto que apresenta tanta complexidade
sócio-econômica e ecológica, como é o Projeto de
Transposição das Águas do Rio São Francisco, que
o governo federal teimosamente continua insistindo em implantar para a região
setentrional do Nordeste do Brasil.
O Luís, que é inimigo declarado do Bispo Dom Luís Cappio,
mas é a favor da execução deste , inoportuno, inconseqüente
projeto, oneroso aos cofres públicos e fadado a não resolver
coisa nenhuma, tenta se justificar alegando que o percentual de água
a ser retirada do rio será apenas um filete (1,4%) e que a população
a ser beneficiada será de 12 milhões de pessoas, repetindo assim
os mesmos números que o governo federal vem divulgando ao longo dos
últimos quatro anos para convencer e sensibilizar a população
brasileira que o projeto vai ser a salvação da seca do Nordeste
levando um caneco de água a quem tem sede.
Por certo, você, Luís,
e todos que são favoráveis à transposição,
mais que não dão uma atenção especial às
questões ambientais, nunca ouviram falar dos Rios Syrdar'ya e Amudar'ya,
na região da Sibéria, que se encontram na UTI em conseqüência
imediata das inúmeras sangrias aduzidas ao longo de seu curso, cujo
resultado é o pequeno filete de água altamente poluída
que chega a sua foz, causando a maior catástrofe ecológica já
vista no mundo, a do Mar D'aral, situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão.
Vocês também não devem estar informados sobre o extermínio
do santuário ecológico que se estendia por 120 quilômetros
a montante da foz do Rio Colorado, desde o Mar do Cortez no México
até a fronteira com os estados do Arizona e da Califórnia, mais
especificamente no estado da Baixa Califórnia, no México onde
milhares de hectares de solos férteis foram salinizados tornando-se
improdutivos, afetando todo o bioma desta região e aniquilando com
a fauna e a flora. Suponho também que vocês não conhecem
o estado deplorável em que se encontra o rio Amarelo da China que passa
nove meses do ano seco ao longo de 550 quilômetros de extensão
a partir de sua foz, conseqüência do mesmo esquema de adução
indiscriminada de suas águas para fins de irrigação retiradas
a montante deste curso, deixando milhões de chineses com fome e sede
ao longo deste trecho afetado. E o famoso aqueduto de Los Angeles na Califórnia!
Foi ele sim, quem promoveu a hipersalinização do Lago Mono e
extinguiu a agricultura dos vales do Owens e do Mojave deixando a sua população
em estado de abandono e pobreza. E a eutrofização do Lago Salton
localizado no complexo de canais do Aqueduto do Rio Colorado, fenômeno
bioquímico introduzido pela restituição das águas
poluídas da irrigação do Vale Imperial, que causou um
prejuízo incalculável às imobiliárias que investiram
uma fábula em um empreendimento que seria implantado em suas margens
e que era considerado como uma nova Palm Spring da Califórnia. Para
encerrar, lembro o extermínio de milhões de salmões e
de trutas que todos só anos subiam o Rio Columbia, EUA para a piracema,
atribuído à construção da represa Grand Coulee.
Poderia aqui continuar a enumerar vários outros exemplos mundiais mal
sucedidos sobre represas, transposição e adução
de água de rios que não deram certo. Todos os exemplos acima
citados apresentam o mesmo perfil: promover modificações danosas
à natureza, causar mais prejuízo ao meio ambiente e a população
do que o retorno dos benefícios esperados. São situações
estarrecedoras analisadas e rejeitadas pelo mundo afora, porém, aqui,
parece que pelo andar da carruagem ninguém sabe, ninguém viu,
e muito menos está disposto a ouvir e dialogar.
Uma simples consulta ao tão badalado Projeto de Revitalização
do Rio São Francisco (que anda a passo de cágado) e do sistema
de exploração e preservação dos recursos naturais
do rio, mostra que o rio já se apresenta em um estágio bastante
avançado de desequilíbrio, em função da devastação
de suas matas ciliares, do assoreamento e da descarga de toneladas de esgotos
altamente poluídos jogados em sua calha. Se junta, a retirada de água
acima de sua disponibilidade alocável para uso consuntivo através
das outorgas já emitidas e das incalculáveis aduções
clandestinas, e aí, estão criadas as condições
ideais para transformar a Bacia do Rio São Francisco em uma réplica
perfeita do que aconteceu nas bacias do Rio Colorado, do Rio Amarelo (China)
e dos Rios Syrdar'ya e Amudar'ya.
O estado de desespero do Velho Chico é tão grande que os ribeirinhos
da cidade de Brejo Grande, em Sergipe, em dezembro de 2006, percorreram 5
km rio adentro atravessando o rio a cavalo até a cidade de Piaçabuçu,
em Alagoas. Em pleno trajeto, no meio do leito do rio, deram-se as mãos
e promoveram um abraço simbólico para protestar contra o estado
de calamidade que se encontra o rio. Este foi um evento que prova a real situação
atual do Rio São Francisco descrita no texto acima, onde o assoreamento
de sua foz já transforma o seu estuário em pequenos deltas.
Isto nos obriga a reensinar nas escolas às nossas crianças,
que tal fenômeno, apesar de ser uma evolução natural dos
rios, está sendo imposto pela ação antrópica indiscriminada
do homem com mudanças radicais para seu bioma.
O Rio São Francisco está, sim, seguindo passo a passo o mesmo
caminho trilhado pelos seus coirmãos, usando a mesma receita que os
deixaram em um estágio deplorável de degradação.
A receita é simples e breve: onde se prescreve para o paciente um remédio
infalível para ser aplicado em doses homeopáticas, é
só ir retirando volumes de água do rio em quantidades superior
as que ele pode oferecer até que a morte o leve, sem direito a UTI
a revitalização, mas com direito a um atestado de óbito
apontando sua morte sem causa etiológica.
Algumas informações técnicas esclarecedoras serão
aqui repassadas principalmente sobre a realidade dos números existentes
atribuídos ao rio que contradizem com aqueles informados pelo governo
no projeto, como: a vazão a ser retirada do rio, a população
a ser beneficiada pelo projeto, e sobre a escassez de água nos estados
de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
O governo federal vem apregoando através de suas repetitivas entrevistas
a imprensa, no rádio,na televisão e nos jornais, e no site do
Ministério da Integração Nacional que o projeto vai levar
água a quem tem sede, ao mesmo tempo em que reserva 70% da água
transposta para irrigação, 26% para uso urbano-industrial e
apenas 4% para consumo humano da população das caatingas, em
nome da qual se quer justificar a obra. Na verdade, o projeto vai beneficiar
mesmo é a irrigação da fruticultura para exportação,
a carcinicultura (criação de camarão) e o pólo
siderúrgico-portuário do porto do Pecém em Fortaleza,
no Ceará.
Primeiro, quero demonstrar que os questionamentos mais fortes para a rejeição
total do Projeto de Transposição das Águas do Rio São
Francisco são os dados técnicos levantados em todos os trabalhos
realizados na região ao longo dos últimos 50 anos principalmente
os estudos básicos levantados pelas próprias instituições
do governo, instituições sérias, e que gozam de um prestígio
irrefutável perante toda a nação, a exemplo dos extintos,
(DNOCS e SUDENE) e da CODEVASF, CHESF, CPRM, PROJETO RADAMBRASI, IBGE, e os
diversos centros de pesquisas, especialmente, os das universidades federais,
etc.
São números inquestionáveis que indicam um superávit
hídrico comprovado para Região Setentrional do Nordeste do Brasil.
Portanto, não existe falta de água que justifique a execução
do projeto para PE, PB, RN e CE.
Só para citar um exemplo de fartura de água da Região
do Nordeste, tomaremos como referência o estado do Ceará, com
o Açude Castanhão (capacidade para 6,7 bilhões m³)
abrindo suas 12 comportas, no dia 08 de Março de 2004 e liberando para
o Rio Jaguaribe uma vazão de 500 m³/s (Rodrigues, 2005). Adicionada
às vazões de 250m³/s do Açude Banabuiú (capacidade
para 1,7 bilhões m³) e a de 12 m³/s do Açude Orós
(capacidade para 2,1 bilhões m³) teremos uma vazão total
de 762 m³/s de água livre drenando o leito do Rio Jaguaribe que
inevitavelmente irá acabar no fundo do mar. Esta vazão representa
mais da terça parte, quase metade, da vazão atual de 1.850 m³/s
do Rio São Francisco, que é vazão média aproximada
que chega até sua foz no Oceano Atlântico.
Esta vazão do Rio Jaguaribe significa um volume de 24 bilhões
m³/ano de água disponível que o rio está jogando
de graça no mar, o suficiente para abastecer toda a população
do Estado do Ceará durante 10 anos ininterruptos a uma taxa de 200
litros/pessoa/dia, preconizada pela Organização Mundial de Saúde,
mesmo que não chova uma só gota d’água durante
este período, e ainda irrigar cerca de 265.800 hectares de terras,
a uma taxa de 7.000 m³/há./ano, atualmente praticada pelo pólo
de irrigação Petrolina-Juazeiro e que é considerada nociva
aos recursos hídricos da região. É bom ressaltar que
o leito do Rio Jaguaribe constitui um dos eixos principais receptores das
águas da transposição, ou seja, vai chover no molhado.
O que existe ,sim, é uma má distribuição espacial
do volume de água já armazenada nesses quatro estados, totalizando
a fabulosa soma superior a 37,5 bilhões m³ (ver boletim No 2 ),
constituindo o maior volume de água armazenada no mundo em uma região
semi-árida, ou seja, um volume per capita de água disponível
de 1.717 m³ por habitante /ano. Significa dizer que este potencial encontra-se
muito acima do índice recomendado pela ONU (Organização
das Nações Unidas), que estabelece um valor de 1000 m³/hab./ano
para reposição do potencial hídrico renovável,
per capita, das reservas de água existentes em escala mundial, considerando
os seus usos múltiplos
Para se levar água as regiões difusas para atender a demanda
da população rural dos quatro estados que é de 5.712.160
habitantes (censo IBGE,2000), há soluções simples e baratas
(ver boletim No 3), mais abrangentes e mais eficientes que qualquer obra de
transposição, como a abertura e a dessalinização
de poços tubulares, construção de cisternas para captação
de água de chuva e a construção das barragens subterrãneas
(solução ímpar para o desemvolvimento e manejo da agricultura
familiar). São opções de consenso indicadas em todos
os textos que tratam do relevante tema, e que realmente vão levar a
água até próximo à porta das casas dos cablocos
do sertão, os verdadeiros necessitados, minimizando muito os custos
e o melhor aproveitamento racional deste recurso.
Conforme informa o Comitê da Bacia Hidrográfica do São
Francisco, o Projeto de Transposição atende a menos de 20% da
área do Semi-Árido e que 44% da população que
vive no meio rural continuará sem acesso a água. Significa dizer
que apenas 3.198.809 da população rural dos quatro estados é
que serão beneficiadas, portanto, um número muito diferente
daquele anunciado pelo projeto, de 12 milhões de pessoas.
Lembro aos defensores do Projeto de Integração do Rio São
Francisco, que para justificar o seu parecer favorável , argumentam
sempre que o Rio São Francisco joga um enorme volume de água
perdida no mar. Essa premissa é verdadeira e não há como
se negar o proclamado dito, mas cabe aqui uma ressalva. É que eles,
os defensores do projeto, não dizem em que condições,
muito especiais, essas perdas ocorrem.
O fator de desperdício das águas do Rio São Francisco
que tanto o Ex-Ministro Ciro Gomes e atualmente o Ministro Pedro Brito e o
Presidente Lula badalam na mídia, acontece inócuo como todas
as águas sábias que vão a caminho do mar depois que o
rio cumpre sua missão.
O Rio São Francisco disponibiliza a partir da Represa de Sobradinho
uma vazão mínima regularizadora de 2.060m³/s determinada
pela CHESF para manter a garantia de geração de energia das
usinas locadas entre Sobradinho e Xingó em épocas de grandes
estiagens, além de irrigar aproximadamente 440 mil hectares de terras
férteis e de abastecer as indústrias e as populações
ribeirinhas. Após esta árdua tarefa, suas águas estarão
livres a jusante da Represa de Xingó a disposição para
implantação de qualquer projeto , desde que seja mantida, neste
trecho do rio, uma vazão ecológica constante de 1.300 m³/s,
estabelecida por lei e definida pelo IBAMA. Portanto, a montante da Represa
de Xingó suas águas já foram quase 100% outorgadas para
os usos múltiplos acima mencionados.
Consta no relatório da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
– SBPC (2005) que o Velho Chico tem uma vazão alocável
determinada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco
(aquela permitida para usos consuntivos) de cerca de 360 m³/s, dos quais
335 m³/s já foram outorgados (desses, efetivamente, só
estão sendo utilizados 91 m³/s), ou seja, já há
o direito adquirido de uso da maior parte desse volume, restando, portanto,
um saldo de apenas 25 m³/s para o atendimento a um projeto que irá
demandar uma vazão mínima de 25 m³/s, média de 65
m³/s e máxima de 127 m³/s. Considerando a vazão efetiva
de uso atual de 91m³/s, os 269 m³/s já com direito de outorga
assegurados, a retirada de uma vazão média de 65 m³/s e
de 127 m³/s previstas no projeto significa 25% e 47%,respectivamente,
dos 269 m³/s já outorgados. Isto significa dizer que o governo
teria que cassar as licenças de outorga já concedidas em detrimento
dos volumes a serem liberados para o projeto e de novos pedidos de outorgas
que por ventura venham a acontecer.
Com a recente outorga concedida pela ANA, de 26,4 m³/s ao projeto de
transposição já existe um déficit de 1,4m³/s
do volume alocável. O rio passou a não contar mais com o saldo
volumétrico para outros fins e caso o projeto venha a ser implementado,
a área irrigável potencialmente existente no Rio São
Francisco não poderá ser expandida por deficiência volumétrica
no rio.
Veja o que diz Suassuna (1996), " O São Francisco já está
com as suas águas comprometidas na geração de energia
e na irrigação. A explicação é a seguinte:
a vazão média do rio é de 2800 m³/seg. Para gerar
energia, levando em conta todo o potencial gerador da CHESF, são necessários,
desse total, cerca de 2100 m³/seg. Portanto, restam 700 m³/seg.
O potencial de áreas irrigáveis do São Francisco é
de 3.000.000 ha. Se considerarmos 0,5 litro/seg./ha. como um número
razoável para fins de cálculo da irrigação que
é praticada atualmente no vale do São Francisco seriam necessários
1.500 m³/seg. para irrigar aquela área potencial. Ocorre que não
temos esse volume disponível no rio. Temos, conforme mencionado anteriormente,
apenas 700 m³/seg. Apesar de termos uma área potencialmente irrigável
de 3.000.000 ha., só é possível irrigar, com o volume
de água disponível no rio (700 m³/seg.), cerca de 1.000.000
ha. Já nos parece existir, nessa contabilidade, um sério conflito
quanto ao uso das águas do São Francisco. Certamente não
iremos ter água suficiente para gerar energia, irrigar e abastecer
as cidades do Semi-árido nordestino conforme se está pretendendo."
Então, não é apenas 1,4% da vazão média
do rio de 2.800 m³/s que será retirada para o Projeto de Integração
do Rio São Francisco, como todos os seguidores do governo vêm
afirmando. O cálculo tem que ser feito levando-se em consideração
a vazão alocável de 360 m³/s e, não, em cima da
vazão média do rio.
Foi realizado um debate, em Recife, em agosto de 2004, Suassuna (2005), pela
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, no qual
foram reunidos 40 dos principais expoentes da hidrologia nacional, para discutirem
a transferência de águas entre grandes bacias hidrográficas,
com enfoque especial ao Projeto de Transposição das Águas
do Rio São Francisco.
"Nessa reunião, os volumes do rio foram exaustivamente analisados,
tendo os técnicos chegado à conclusão de que o rio tem
um volume alocável de apenas 360 m³/s, dos quais 335 m³/s
já foram outorgados, ou seja, já estão com o direito
de uso assegurado. O diferencial volumétrico para satisfazer tais demandas
somente será obtido na represa de Sobradinho quando esta estiver com
94% de sua capacidade preenchida, ou seja, quando estiver praticamente cheia.
De acordo com os hidrólogos da SBPC, essa aproximação
volumétrica só será possível em 40% dos anos,
pois a tendência da represa de Sobradinho, desde a época de sua
construção, é de encher quatro vezes a cada 10 anos.
Portanto, na nossa ótica, o projeto tem um orçamento demasiadamente
elevado (estão previstos cerca de R$ 4,5 bilhões, numa primeira
fase) para ser utilizado em atividades cujo funcionamento pleno só
será possível em apenas 40% dos anos. Para se ter uma idéia
dessa problemática, a represa de Sobradinho verteu em 1997 e voltou
a verter em 2004. Nesses sete anos, a bacia do rio passou por secas sucessivas,
culminando, em 2001, com a mais séria crise energética da nossa
história."
Com a atenção de todos, existem estudos muito bem fundamentados,
conforme exposto no texto acima, que regulamentam e regularizam as retiradas
de água do Rio São Francisco, determinadas por órgãos
oficiais e competentes, como Comitê da Bacia Hidrográfica do
São Francisco e a CHESF. Portanto, esses documentos devem ser aceitos
e respeitados por todos que desejam se beneficiar com o que o "Velho
Chico" ainda tem para dar.
Uma atenção especial para os exemplos mundiais dos rios acima
citados, com problemas ecológicos graves advindos do uso indiscriminado
de suas águas ao longo das bacias mencionadas, deve ser avaliada e
vista como uma realidade e não como uma ficção científica.
O alarme já foi dado, resta agora esperar que todos façam uma
reflexão do que foi dito neste modesto comentário, e, quem sabe,
ao rever os seus conceitos e posições atuais, se chegue também
a uma conclusão sábia: Transposição das Águas
do Rio São Francisco, jamais. Revitalização, já.
Artigo enviando gentilmente pelo meu amigo Marcos de Paula - Agente Desenvolvimento do BNB

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