Peixes do cerrado em perigo
Espécies de peixes vêm sendo extintas por causa da destruição
de ambientes aquáticos, em especial no caso de córregos e
riachos das cabeceiras de rios maiores. No Brasil, essa situação
é alarmante nos cursos d’água da região dos cerrados,
ainda pouco conhecidos e cada vez mais degradados.
A
extinção de espécies de peixes endêmicas –
que só ocorrem em determinada área ou ecossistema –
está aumentando na mesma proporção da destruição
dos ecossistemas aquáticos. As características das regiões
onde tem sido observada essa perda de biodiversidade foram sintetizadas
pelos ictiólogos Peter Moyle e Joseph Cech, da Universidade da Califórnia:
economias altamente desenvolvidas, pequenos corpos d’água isolados,
climas áridos, grandes rios e lagos.
Peixes de pequeno porte vivem em geral em córregos e riachos e representam,
no mínimo, 50% do total de espécies da ictiofauna sul-americana
, segundo o biólogo Ricardo Castro, da Uni versidade de São
Paulo (campus de Ribeirão Preto).
As extinções ocorrem, segundo Moyle e Cech, porque os ecossistemas
aquáticos são ilhas ou faixas de água cercadas por
‘oceanos’ de terra cheios de gente. Eles alertam que a crescente
dificuldade de preservar espécies de peixes de pequeno porte tem
origem na economia, porque atualmente “o valor econômico de
curto prazo predomina sobre o valor de ganho mais sustentável de
longo prazo”. Como em geral as espécies pequenas não
têm valor comercial, muitas pessoas não dão importância
a elas, visão que dificulta a conservação dos peixes
de riachos menores dos cerrados, da mata atlântica e de
outros biomas pouco estudados e já bastante degradados.
Os esforços conservacionistas no país, como taxonomistas brasileiros
alertaram em 1990, concentravam-se em mamíferos, aves e plantas ornamentais,
com pouca ou nenhuma atenção a organismos aquáticos.
Eles admitiam não ser possível pre-
servar todas as espécies de peixes ameaçadas, mas diziam ser
imprescindível tentar salvar, ao menos, uma parte delas. Na época,
foi destacada a ineficácia das medidas de proteção
aplicadas apenas a ambientes aquáticos situados dentro de unidades
de conservação, porque as cabeceiras dos rios e riachos formadores
desses ambientes estão fora desses
limites, e portanto sujeitas a todo tipo de alterações.
Essa preocupação continuava em 1996, como destacou o ictiólogo
José Sabino, da Universidade Estadual de Campinas, em encontro sobre
biodiversidade da mata atlântica do Sudeste e do Sul. Ele recomendou
a inclusão de nascentes e pequenos
riachos na área das unidades de conservação da floresta
atlântica, quando de sua criação, visando salvar pelo
menos uma parcela da ictiofauna. Essa
mesma medida também precisa ser adotada para riachos, córregos
e veredas do cerrado
Os peixes e seu ambiente
Para
entender as influências mútuas entre os siste mas de riachos
e os peixes, é preciso conhecer a estrutura básica dos cursos
d’água e sua relação com a bacia de drenagem
e com o ambiente terrestre adjacente. Muitas das características
físicas, químicas e biológicas das águas correntes
são determina das por aspectos da bacia de drenagem, como incli nação
do vale, características do solo e padrões de chuvas. A vegetação
terrestre também influencia a estrutura e o funcionamento de ecossistemas
aquáticos. Nos pequenos riachos das cabeceiras, folhas mortas e galhos
são as fontes primárias de carbono orgânico para as
cadeias alimentares aquáticas, chegando a representar até
70% do fluxo de energia anual desses ecossistemas.
Os efeitos da retirada da vegetação natural e de outros distúrbios
provocados pelo homem (como atividades agropecuárias e urbanização)
sobre o fluxo de riachos em montanhas nos Estados Unidos foram descritos
pelo ictiólogo William J. Matthews, da Universidade de Oklahoma:
“A terra agora parece árida e os fluxos são muito irregulares.
Muitas terras foram convertidas em pastagens para o gado. (...)
Há mudanças na qualidade da água e nas condições
físico-químicas, particularmente em riachos tributários
menores.
Grande parte da matéria orgânica dissolvida que entra nos riachos
não é usada por organismos aquáticos locais, sendo
levada para outros trechos pela correnteza. Muitos compostos, porém,
são consumidos por microrganismos, em especial bactérias e
fungos, que – como parte da dieta de outros organismos – os
transferem para os níveis seguintes das cadeias alimentares. Assim,
como o fluxo dos rios segue apenas uma direção, o que ocorre
nas cabeceiras e nos afluentes menores influencia direta ou indiretamente
a produtividade de todo o sistema.
Impactos nos rios dos cerrados
Nos cerrados próximos ao Pantanal Mato-grossense, os efeitos da retirada da vegetação foram estudados pelo biólogo alemão Karl M. Wantzen, do Instituto Max Planck de Limnologia, em parceria com a Uni versidade Federal de Mato Grosso. Ele avaliou o impacto, sobre a fauna de invertebrados em córregos pantaneiros, do maior aporte de sedimentos, em função do desmatamento e da erosão, e da movimentação contínua destes. O estudo revelou que o efeito ‘jato de areia’ (a raspagem promovida pelo rápido fluxo de sedimentos) removeu algas e biofilmes aderidos aos diferentes substratos, eliminando ou re duzindo fontes de alimento para invertebrados pastadores e bentônicos (os que vivem no fundo ou na área litorânea). Diversos pesquisadores já comprovaram que invertebrados bentônicos são os principais itens da dieta de peixes de cabeceiras.
Em
1999, Antonio Faria e Jorge Marques, da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), apontaram o maior escoamento superficial nas encostas e o entulhamento
dos vales por sedimentos, em função do desmatamento e de sistemas
inadequados de cultivo, como as principais causas da extinção
de córregos na mata atlântica (ver ‘O desaparecimento
de
pequenos rios brasileiros’ em CH no 146). A mesma paisagem foi descrita
por Wantzen para rios dos cerrados em Mato Grosso: ele atribuiu o aumento
da erosão nas cabeceiras da bacia de drenagem do Pantanal a mudanças
no uso da terra no sudeste do estado (desmatamento, agricultura não
sustentável, mineração e construção de
estradas).
O biólogo
César E. Melo, em tese de doutorado na UFSCar (em 2000) sobre a ictiofauna
de córregos do cerrado em Mato Grosso, constatou que as espécies
de cabeceiras e de áreas de inundação são as
mais vulneráveis, e recomendou, para evitar sua extinção,
a conservação de todo o sistema. O ictiólogo Paulo
Buckup, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, des tacou em 1996 “a
destruição de hábitats, o isolamento das populações
sobreviventes e a pequena área de distribuição”
como causas do declínio das populações de Characidium
lagosantense, um pequeno peixe das lagoas da região das cabeceiras
do
rio São Francisco.
Os
canais dos rios evoluem em resposta ao clima, à geologia e às
intempéries, e sua forma e manutenção dependem de forças
relacionadas ao fluxo da água (figura 3). Embora os pequenos riachos
sejam similares na aparência, podem ser muito distintos, em função
de sua história, geologia e geografia. Assim, os impactos decorrentes
de ações humanas têm papel relevante sobre esses cursos
d’água, prejudicando o estudo zoogeográfico da ictiofauna
e a compreensão das origens das espécies.
Outro
ictiólogo do Museu Nacional, Wilson Costa, em livro sobre diversidade
e conservação de peixes anuais
brasileiros, constatou sua expressiva diversidade em ambientes do cerrado
(os peixes anuais vivem em ambientes aquáticos temporários,
e deixam ovos no solo quando o hábitat está secando, para
que os filhotes nasçam com a volta da água).
Ele registrou 25 espécies endêmicas do cerrado brasileiro,
entre elas várias dos gêneros Cynolebias e Cynolebias e Simpsonichthys
endêmicas de trechos altos das bacias do Tocantins, do Paraná
e do São Francisco
A maior parte da água do rio São Francisco provém de
‘olhos d’água’, veredas, córregos e ribeirões
situados nos cerrados de Minas Gerais, no trecho alto da bacia. O solo do
cerrado atua como uma esponja: absorve a água das chuvas e abastece
as nascentes e córregos da região o ano inteiro, garantindo
o fornecimento para o São Francisco. A destruição dos
cerrados, porém, tem sido intensa.
Em relato de quem testemunhou essa situação, durante caminhada da nascente à foz do São Francisco, de outubro de 1992 a outubro de 1993, o frei Luiz Cappio e colaboradores apontaram os sinais da intervenção humana no trecho inicial do rio (da nascente ao município de Várzea da Palma):
1. garimpo de diamante (que alterou o curso do rio, destruiu em parte as matas ciliares e causou erosão e assorea mento),
2. desmatamento (levantamento entre 1990 e 1991, no trecho inicial do rio, com cerca de 250 km, revelou a presença de matas ciliares em apenas 4,03% das margens),
3. produção de carvão vegetal (e ocupação das terras desmatadas por culturas de cana-de-açúcar, eucalipto e Pinus),
4.
esgotos domésticos, industriais e agrícolas (poluindo a água
com agrotóxicos, fosfato, coliformes fecais, mercúrio e
outros metais pesados, e levando à morte peixes, aves e outros animais);
5. pesca predatória com redes de malhas muito pequenas (em especial na época da piracema, a subida dos peixes contra a correnteza do rio, para a desova);
6.
construção de barragens (inundando lagoas marginais, veredas
e riachos
e reduzindo o volume das águas rio abaixo).
Em
função dessas atividades, caiu o volume de por ter sua área
de ocorrência cogitada para uma grande usina hidrelétrica
água dos ribeirões, nascentes desmatadas secaram, lagoas foram
drenadas para plantios e rios viraram esgotos. Ironicamente, a alta demanda
de água limpa coincide com o acúmulo de produtos residuais
em rios e lagos, degradando os sistemas aquáticos.
Wilson Costa destaca a bacia do São Francisco como área que merece atenção especial por conter “grande diversidade de espécies, apenas recentemente revelada”, e devido à vulnerabilidade desses peixes, que ocupam pequena área de distribuição. Ele concluiu que, no cerrado, há sete espécies em perigo de extinção: sua reduzida área de distribuição está sendo descaracterizada pelos desmatamentos para plantios diversos e é ameaçada pelo alto poten cial hidrelétrico da região.
Já
em 1978 taxonomistas de peixes consideravam os riachos localizados em áreas
elevadas da América do Sul (entre eles os da bacia do São
Francisco) possíveis sítios de endemismo, e alertavam para
a necessidade de intensificar os estudos sobre
os peixes dessas áreas. Apesar disso, a ictiofauna da bacia do São
Francisco segue, em sua maior parte, não descrita e ignorada. Para
esses cientistas, a medida mais importante seria fazer o inventário
das áreas onde há perigo imediato de alterações
ambientais. Naércio Menezes, do Museu de Zoologia da Universidade
de São Paulo, em trabalho de 1991, afirmou que, “naturalmente
protegidas pela altitude, as regiões de cabeceiras dos rios caracterizam-se
pelo elevado grau de endemismo e menor diversidade em relação
às áreas costeiras” e que “a delimitação
e conservação dessas áreas são
essenciais para a preservação da biodiversidade de peixes”.
O desafio
da ictiologia sul-americana Todos esses dados sobre o que vem acontecendo
na bacia do São Francisco dispensam mais levantamentos sobre os perigos
imediatos. Hoje, como destaca Ricardo Castro, “a grande fronteira
e desafio da ictiologia sul-americana consiste no estudo da sistemática,
evolução e biologia geral dos peixes de águas doces
de pequeno porte”. É urgente, portanto, a necessidade de inventariar
a ictiofauna dos riachos do cerrado (figura 6), em especial os da bacia
do São Francisco (e de todos os seus afluentes), antes que a degradação
deixe sérias lacunas no conhecimento
da zoogeografia e das relações filogenéticas dos peixes
da região neotropical.
Como afirmou o naturalista inglês Alfred Wallace (1823-1913), as espécies de animais e plantas atuais são “como letras individuais que comporão um dos volumes de nossa história da Terra”. “Como umas poucas letras perdidas podem tornar uma sentença ininteligível”, disse Wallace, “assim a extinção de numerosas formas de vida que o progresso do desenvolvimento invariavelmente impõe necessariamente tornará obscuro esse inestimável registro do passado”.
O engajamento
na luta pela conservação da biodiversidade aquática
não deve ser apenas da comunidade científica, mas de todos
os cidadãos comprometidos com o legado ambiental que deixaremos para
as próximas gerações (valor transgeracional da biodiversidade).
Ao mesmo tempo, medidas efetivas e urgentes precisam ser tomadas para interromper
a constante destruição dos cerrados brasileiros, responsáveis
pela formação de afluentes de seis das oito principais bacias
hidrográficas do país.
Moyle e Cech, que dedicaram um capítulo de seu livro Fishes: an introduction
to ichthyology (Peixes: uma introdução à ictiologia)
à discussão sobre conservação de peixes, acreditam
que a proteção dos peixes ameaçados em todo o mundo
de pende fundamentalmente de argumentos não-econômicos, traduzidos
em políticas públicas e leis, e argumentam que o único
modo de manter os peixes e os ecossistemas aquáticos no futuro é
mudando o clima ético do mundo. Este parece ser um
grande desafio, não só para os ictiólogos, mas para
todos os que se preocupam em conservar os recursos naturais. ¦


Por Maria de Fátima P. de Sá, do Programa Regional de Pós-graduação
em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), da Universidade Federal de
Alagoas; Nelsy Fenerich-Verani, do Departamento de Hidrobiologia da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar); e Evelise N. Fragoso, do Programa
de Pós-graduação em Ecologia e Recursos Naturais da
UFSCar (doutoranda).

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